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Após prisão, Zé Elias abre diário e revela dor, trotes e até lado psicólogo

Globoesporte.com

Ex-volante, que passou 30 dias preso por não pagar pensão aos filhos, mostra ao Globoesporte.com alguns trechos dos seus manuscritos.

A lembrança do som da tranca batendo com força no portão de ferro ainda causa uma sensação estranha, difícil de o ex-volante Zé Elias, de 35 anos, explicar. Mas tantos outros sentimentos e acontecimentos estão devidamente registrados nas páginas de um caderno com uma capa do Homem-Aranha. Em letras tortas, certinhas ou rabiscos – “Dependia da posição de como estava sentado no chão”. Em mais de 30 páginas, ele relatou com detalhes tudo o que vivenciou nos 30 dias em que esteve preso no 33º Distrito Policial, na região de Pirituba, em São Paulo.

Zé Elias foi preso por não pagar R$50 mil de pensão aos dois filhos do primeiro casamento no dia 21 de julho. Nesta sexta-feira, ele completa uma semana de liberdade, depois de um mês de tensão, dor e aflição. O caso corre em segredo de Justiça e por isso ele foi orientado a não dar detalhes sobre o andamento da situação.

Mas, em conversa com a reportagem na última terça-feira, o ex-atleta mostrou algumas páginas do diário que escrevia na prisão e que pretende transformar em um livro. São histórias de outros presos, explicações sobre gírias – cozinha, por exemplo, era o detento responsável por fazer as refeições – e trotes que faziam como brincadeira para passar o tempo. Na cadeia, o sono chegava forçado, coisa que não acontece agora.


– Durmo às 5h e levanto às 6h. Ainda não consegui me readaptar – disse.

Em meio a tantos registros de presos que falavam em suicídio – e que fizeram Zé Elias atuar como uma espécie de psicólogo – , uma frase do caderno o faz sorrir: “13h47 – saiu meu alvará de soltura. Estou indo embora.”

GLOBOESPORTE.COM – Como foi a reação dos outros presos quando você chegou?
Zé Elias – 
Os delegados avisaram que eu estava indo para lá. Existe uma coisa chamada função e são quatro os presos que fazem a ligação entre os que estão na prisão e a carceragem. Logo que cheguei, falei que queria tratamento igual ao de todos os outros porque a única coisa que mudava ali era o nome da ex-esposa e o valor da dívida (da pensão). E isso quebrou um pouco a expectativa que tinham. Lavei louça, limpei o pátio, passei pelo trote (ele teve de procurar uma churrasqueira elétrica dentro da cadeia, o que não existia) e eles viram que eu era o que tinha falado mesmo. Aí o convívio ficou mais fácil. E eles começaram a perguntar de estádios, de brigas entre jogadores, pediam autógrafos… Com isso, fui acalmando o pessoal e a mim mesmo, porque tirava um pouco a cabeça daquilo que estava vivendo.

Conseguiu dormir na primeira noite?
Você chega tão tenso, nervoso e abalado que acaba dormindo pelo estresse. Relaxa forçadamente. Deita e apaga por causa disso. A tranca bate e faz barulho. Aí você olha para o céu e vê as grades trançadas. Demorou uns três dias para eu me adaptar à rotina, às regras. Procurava criar coisas na cabeça para não sentir tanto. Usei a minha experiência em viagens para me libertar. O dia em que senti mais foi quando troquei recados com a minha esposa e ela trouxe uma canequinha da minha filha. Aí eu desabei. Saí de casa e ela estava com o cabelinho ralinho e depois de uns dias já usava “xuxinha”. Desabei e chorei.

Zé Elias compartilha algumas de suas experiências na cadeia

Como era a sua rotina?
Acordava às 8h, fazia a limpeza do pátio e tomava café. Aí todo mundo podia ficar tranquilo dentro do “X” (cela). À tarde tinha um lanche que nós fazíamos com os mantimentos que as famílias mandavam e jantávamos às 20h. Quando dava 22h, todo mundo arrumava o pátio para dormir. Chegamos a ficar em oito em uma cela e, em outros momentos, em 15. Na hora de dormir, cinco ficavam na cela e os outros iam para o pátio.

O que te fazia sofrer mais neste tempo?
Acho que foi o fato de não poder ser útil para minha família. Eu sabia o que os meus pais estavam passando porque via na televisão que estavam chorando. Queria pedir desculpa… Ver meu pai chorando no dia dos pais acabou mexendo comigo. Recebia recados da minha esposa também. Tem coisas que você não consegue apagar. Até hoje quero pedir desculpas para o meu pai, por fazê-lo passar o que passou, a vergonha. Nunca dei trabalho quando moleque. E o primeiro que dei foi fazer ele me visitar na prisão por dívida de pensão.

Quando resolveu fazer o diário?
No começo era um desabafo para passar o tempo. Depois virou uma maneira de tentar mostrar o que é aquilo lá. Todo mundo acha que o pai é preso porque não paga a pensão e não é isso. Tinha um rapaz que pagava diariamente, vivia com a filha porque a mulher era drogada e estava lá. Tudo isso porque a mulher não tinha dado baixa no processo e ele acabou ficando preso. Conto a história de outras pessoas para entenderem o que acontece com os pais, o desespero para sair porque não aguentam. Conversei com pais que falaram que queriam se matar. Ai, quem está ali, começa a vigiar o amigo. Em oito dias, conversei com três pais para não acontecer nada.

Sobre o que fala nos seus relatos?
Escrevi um dia sobre a saudade que sentia do meu avô, sobre meus filhos, as situações que vivia lá dentro, sobre nossas conversas… Eu já sei o nome que darei ao livro, mas ainda não quero falar. E vou colocar os desenhos de como eram as disposições das celas, que um companheiro fez para mim.

Então pretende publicá-lo?
Queria conseguir uma editora para colocar essas experiências para as pessoas verem o que é. Não é prendendo um pai que você vai solucionar um problema. Há bons e maus pais. Tem de mostrar que prisão só vai servir para devastar uma vida, porque o cara endivida e não consegue pagar. As marcas que ficam nunca mais vão sair. Você vê o filho saindo correndo para os braços do pai porque acha que a polícia vai levá-lo embora… Quando fui preso, o policial pedia para eu acelerar porque não aguentava ver meu filho chorando.

Quais gírias aprendeu por lá?
Tem o rapa, que é a lavagem do pátio, o radial é o almoço, e o badeco, o marmitex. Coruja é o lugar onde pendurava as cuecas. “X” é a cela, e o meu era chamado de SUS porque eu ajudava todo mundo com remédios. O X4 era o INSS, onde ficavam as pessoas com algum problema físico, o X3 o pessoal da igreja, no X2 o pessoal que bebia, mas que lá não podia fazer mais nada, e no X1 era o hospício, com o pessoal mais da brincadeira e da sacanagem.

E você já teve contato com os seus outros filhos, do primeiro casamento?
Não sei a reação deles ainda. Agora as coisas estão assentando, e a advogada falou para ficar mais calmo para retomar as conversas. Fazia tempo que não tinha contato com eles (antes de ser preso). É difícil falar porque às vezes você tem (boa) relação (com a mãe) e às vezes não. E os filhos acabam sendo prejudicados por isso. Mas tenho o sentimento como com os outros dois. Na última vez em que minha filha veio aqui em casa, ela escreveu uma carta espontaneamente, dizendo que nos ama, mandando beijo, e escrevi sobre isso um dia na prisão, pensava como estavam, se tinham crescido mais… Saudades eu tenho. Mesmo não tendo contato, estão no meu coração.

Você já voltou a pagar a pensão deles?
Sim, inclusive paguei ontem (segunda-feira). Agora são dois salários mínimos (R$1.090).

Você sabia que poderia ser preso a qualquer momento por não pagar a pensão. Estava preparado para o momento da prisão?
Procurava conversar com minha esposa. Como mãe, ela não aceitava o fato (de poder ser preso). Você vai se preparando para evitar o choque maior. Falei para ela ter calma porque precisava que estivesse firme. Mas você nunca está preparado. Quando os policiais vieram aqui em casa, ela chorava de um lado e eu tremia de outro. Ninguém nunca está preparado. Mas eu sabia que tinha de enfrentar e, como entrei foi como sai, de cabeça erguida. Se demonstrasse fraqueza seria pior. Mas foram 30 dias difíceis.

E qual foi a sensação quando saiu?
No começo sentia um pouco de inveja porque tem muita gente que saia da prisão e eu não conseguia entender as reações. Tinha pai que chorava, que tremia. E eu só queria caminhar e atravessar a rua. Andar e ver as pessoas.

Houve algum momento inusitado lá dentro?
Quando um pai entrava, fazíamos pegadinhas. Por exemplo, mandávamos pegar um liquidificador em alguma cela. Só que nunca tinha nada. Era mais para descontrair e passar o tempo, tirar a tensão. No primeiro dia de visitas os pais pediram para que eu conhecesse suas mães, filhos. Aí eu dava autógrafos, conversava e isso tirava um pouco a minha cabeça dali.

Vocês podiam assistir futebol?
Assistíamos aos jogos, sim. Vimos Corinthians e Avaí, Palmeiras e Vasco… Eles me perguntavam como funcionava e eu falava como um comentarista. Tinham curiosidades e eu respondia, explicava como era o esquema de jogo.

É possível tirar algo de positivo?
É. Acredito que você só aprende nas porradas, porque no amor você não dá tanto valor. Aprendi que tenho o amor dos meus filhos e que preciso ser exemplo para eles como meus pais foram. Eu demorava para dormir, mas, quando dormia, dormia porque sabia que não tinha condições de pagar o que era pedido. O aprendizado é ser honesto.

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