{"id":78261,"date":"2015-05-13T18:33:29","date_gmt":"2015-05-13T21:33:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.vitoriadaconquistanoticias.com.br\/v2\/?p=78261"},"modified":"2018-10-25T14:23:38","modified_gmt":"2018-10-25T17:23:38","slug":"artigo-abolicao-para-quem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.vitoriadaconquistanoticias.com.br\/v2\/2015\/05\/13\/artigo-abolicao-para-quem\/","title":{"rendered":"Artigo: Aboli\u00e7\u00e3o para quem?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Treze de maio de 1888: envolto em um conturbado cen\u00e1rio pol\u00edtico interno &#8211; <em>em face da transi\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio para a Rep\u00fablica<\/em> &#8211; e diante das paralelas transforma\u00e7\u00f5es externas ocorridas na Europa &#8211; <em>que consolidava as estruturas capitalistas e via a Inglaterra refor\u00e7ando o desejo de aumentar o n\u00famero da sua m\u00e3o &#8211; de &#8211; obra assalariada<\/em> &#8211; o Brasil foi testemunha de um importante fato hist\u00f3rico, a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p><strong><img class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-54826\" src=\"http:\/\/www.vitoriadaconquistanoticias.com.br\/v2\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/fonte_pmvc-150x150.jpeg\" alt=\"fonte_pmvc\" width=\"40\" srcset=\"https:\/\/www.vitoriadaconquistanoticias.com.br\/v2\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/fonte_pmvc-150x150.jpeg 150w, https:\/\/www.vitoriadaconquistanoticias.com.br\/v2\/wp-content\/uploads\/2013\/03\/fonte_pmvc.jpeg 240w\" sizes=\"(max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><span style=\"color: #d71f27;\">| PMVC . Coord. de Igualdade Racial<\/span><\/strong><\/p>\n<p>Em 2015 se comemora cento e vinte e sete anos da hist\u00f3rica data em que a Princesa Isabel, filha do Imperador Pedro II, assinou a Lei \u00c1urea, que decretou o fim do secular per\u00edodo de escravid\u00e3o no Brasil.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" class=\"\" src=\"http:\/\/i.imgur.com\/wvT0PXQ.jpg\" alt=\"\" width=\"545\" height=\"365\" \/><\/p>\n<p>\u00c9 desta maneira que, tradicionalmente, se propaga esta importante passagem da hist\u00f3ria brasileira nos bancos das escolas espalhadas pelo pa\u00eds: a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o como uma d\u00e1diva concedida pelos senhores e governantes por entenderem que era chegada a hora de todos sermos iguais. De acordo com o ensinamento repetido dia ap\u00f3s dia, o ato da Princesa Isabel foi respons\u00e1vel por equiparar os negros libertos aos brancos, inserindo os antigos escravos no contexto social igualit\u00e1rio, onde n\u00e3o havia descrimina\u00e7\u00e3o e racismo.<\/p>\n<p>Ocorre que, diverso do quando difundido, o ato formalizado pela Princesa em 1888 apenas serviu para mascarar um contexto de sofrimento, racismo e humilha\u00e7\u00e3o vivenciado pelos negros por longos tempos. Muito pouco (ou quase nada) mudou na vida daqueles que por s\u00e9culos foram ref\u00e9ns de um sistema atroz e desumano, que at\u00e9 os dias atuais se veem deixados em segundo plano no momento em que se discute a hist\u00f3ria do Brasil.<br \/>\n<!--more--><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>A campanha abolicionista, em fins do s\u00e9culo XIX, mobilizou vastos setores da sociedade brasileira. No entanto, passado o 13 de maio de 1888, os negros foram abandonados \u00e0 pr\u00f3pria sorte, sem a realiza\u00e7\u00e3o de reformas que os integrassem socialmente. Por tr\u00e1s disso, havia um projeto de moderniza\u00e7\u00e3o conservadora que n\u00e3o tocou no regime do latif\u00fandio e exacerbou o racismo como forma de discrimina\u00e7\u00e3o.<\/em><strong> Gilberto Marigone 2012,<\/strong><\/p>\n<p>Como dito, em poucos bancos de salas de aula tem-se a oportunidade de aprender que a liberta\u00e7\u00e3o do povo negro foi resultado de um permanente e incessante conjunto de lutas travadas contra o regime e contra os escravocratas por mais de tr\u00eas s\u00e9culos. Muitos se esquecem (ou preferem omitir) a informa\u00e7\u00e3o que a resist\u00eancia contra a escravid\u00e3o iniciava-se ainda nos navios negreiros quando muitos escravos provocam sua morte. A <em>posteriori<\/em>, quando negociados pelos traficantes, a batalha reiniciava e a tentativa de fuga era imediata ainda mesmo no transporte para as senzalas, onde mais uma boa quantidade terminava morrendo.<\/p>\n<p>E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3. Muitas mulheres escravas, ceifadas de suas for\u00e7as e incapazes de escapar do sistema buscavam atrav\u00e9s do aborto impedir que seus filhos fossem transformados em cativos \u2013 notadamente quando o feto era concebido contra a sua vontade. N\u00e3o s\u00e3o poucos os casos que relatam os abusos sexuais perpetrados contra as escravas pelos Senhores de Engenho, que na maior parte das vezes possu\u00eda a compreens\u00e3o clara das duas supostas fun\u00e7\u00f5es da negra: a trabalhadora bra\u00e7al durante o dia e o complemento sexual \u00e0 noite. Outra forma comum de resist\u00eancia \u00e0 escravid\u00e3o que raramente \u00e9 trazida a baila \u00e9 o suic\u00eddio, realizado in\u00fameras vezes por aqueles que preferiam escapar em definitivo do sofrimento carnal ao inv\u00e9s de morrer um pouco mais a cada dia, sem dignidade, for\u00e7a e liberdade.<\/p>\n<p>Alternativa diversa de luta que foi criando espectro durante o s\u00e9culo XVII foram as fugas dos nossos irm\u00e3os para as matas e serras distantes na tentativa de reconstru\u00e7\u00e3o de uma organiza\u00e7\u00e3o social semelhante as que tinham na \u00c1frica. Desta ideia nasceram os primeiros dos muitos quilombos que se espalham pelo Brasil ao longo de toda escravid\u00e3o, atuando como verdadeiros locais de prote\u00e7\u00e3o e guetos propagadores das ideias de liberdade, que n\u00e3o demoraram a alcan\u00e7ar os centros urbanos. \u00c9 a partir desta propaga\u00e7\u00e3o de ideias de liberdade e igualdade que surgem institui\u00e7\u00f5es, como, por exemplo, as associa\u00e7\u00f5es beneficentes e benem\u00e9ritas que se agrupavam com objetivo se arrecadar fundos para compra de alforrias e cria previd\u00eancias com o intuito de sustentar os negros mais velhos que mesmo livres n\u00e3o tinha como se sustentar. A Alforria nunca era uma conquista solit\u00e1ria, uma vez que resultava de uma rede de solidariedade e esfor\u00e7os conjuntos dos companheiros, pais, av\u00f3s, padrinhos e madrinhas que se uni\u00e3o a fim de conceder liberdade \u00e0queles que se encontravam presos nas malhas da escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 1751, na cidade do Salvador, Jer\u00f4nima da Concei\u00e7\u00e3o, vi\u00fava, libertou Marcelino, mulato, com dois ou tr\u00eas anos de idade, depois de ter recebido 30 mil contos pago por seu pai, Floriano Alares Pereira. Na mesma cidade, em 1818, a Freira Maria Clara de jesus, do Convento de Santa Clara do Desterro libertou um rec\u00e9m &#8211; nascido depois de receber 20 mil r\u00e9is pagos pela m\u00e3e da crian\u00e7a. Os padrinhos concorriam frequentemente com quantias para alforria dos afilhados, em fevereiro de 1871, n cidade de Porto alegre, o pequeno Ernesto, filho de Inoc\u00eancia e neto de Gertrudes, foi liberto ap\u00f3s sua av\u00f3 ter pago 130 mil r\u00e9is a sua senhora. (Valter Fraga Filho 2006)<\/p>\n<p>Neste diapas\u00e3o de luta e resist\u00eancia, n\u00e3o se pode esquecer a import\u00e2ncia das organiza\u00e7\u00f5es religiosas, que atrav\u00e9s dos mais velhos estruturavam e mantinham a tradi\u00e7\u00e3o do culto aos Orix\u00e1s, elemento que possibilitou a unidade e a f\u00e9 que faz esse povo garantir o permanente desejo de enfrentar e resistir para manter a sua ancestralidade que vai sendo transmitida de gera\u00e7\u00e3o a gera\u00e7\u00e3o fortalecendo o desejo de liberdade.<\/p>\n<p>Todas estas informa\u00e7\u00f5es e circunst\u00e2ncias nos remetem a um dado estat\u00edstico pouco ensinado nos bancos das escolas: apenas 30% dos negros do Brasil foram beneficiados com a Lei Aurea, j\u00e1 que quando ela foi assinada pela Senhora Isabel cerca de 70% dos negros do Brasil j\u00e1 estavam livres com resultado de todas essas formas de luta que relatamos acima.<\/p>\n<p>Mesmo antes da aboli\u00e7\u00e3o formal ser assinada, os negros e negras j\u00e1 se utilizavam de estrat\u00e9gias inteligentes para garantir a sobreviv\u00eancia do seu grupo social, ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o que estava prestes a acontecer. Uma destas estrat\u00e9gias pode ser vista, mais uma vez, analisando dados estat\u00edsticos encontrados nos registros dos arquivos p\u00fablicos da Bahia: a maior parte das alforrias que os grupos familiares negociam e compravam dos senhores e senhoras assim como as compras feitas pelas associa\u00e7\u00f5es protetora dos negros, criadas a partir do s\u00e9culo XIX, sempre deram prioridade aos cativos do sexo feminino, pois se entendia que libertas estas teriam seus filhos j\u00e1 livres o que seria importante para continuar a exist\u00eancia do negro no Brasil.<\/p>\n<p>Diante do todo exposto, reside a pergunta: ser\u00e1 que temos realmente algum motivo para continuar ensinado aos nossos alunos esta Hist\u00f3ria que nos foi contada? Por quanto tempo esta vers\u00e3o positivista da Hist\u00f3ria brasileira ser\u00e1 transmitida pelos livros did\u00e1ticos adotados pelo governo? O que motiva a escrita de uma hist\u00f3ria que ainda exalta o treze de maio como marco libertador do povo negro?<\/p>\n<p>\u00c9 de bom alvitre salientar que em nenhum momento busca-se desprezar o ato formal que p\u00f4s fim a escravid\u00e3o, contudo, em face do modo como at\u00e9 hoje ele \u00e9 encarado e, notadamente em raz\u00e3o da supervaloriza\u00e7\u00e3o do treze de maio de 1888, nunca \u00e9 demais se questionar: 13 de maio? Para quem, meu povo?<\/p>\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Treze de maio de 1888: envolto em um conturbado cen\u00e1rio pol\u00edtico interno &#8211; em face da transi\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio para a Rep\u00fablica &#8211; e diante das paralelas transforma\u00e7\u00f5es externas ocorridas na Europa &#8211; que consolidava as estruturas capitalistas e via a Inglaterra refor\u00e7ando o desejo de aumentar o n\u00famero da sua m\u00e3o &#8211; de &#8211; [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_links_to":"","_links_to_target":""},"categories":[1986,166,9],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.vitoriadaconquistanoticias.com.br\/v2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78261"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.vitoriadaconquistanoticias.com.br\/v2\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.vitoriadaconquistanoticias.com.br\/v2\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.vitoriadaconquistanoticias.com.br\/v2\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.vitoriadaconquistanoticias.com.br\/v2\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=78261"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.vitoriadaconquistanoticias.com.br\/v2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78261\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":120339,"href":"https:\/\/www.vitoriadaconquistanoticias.com.br\/v2\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78261\/revisions\/120339"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.vitoriadaconquistanoticias.com.br\/v2\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=78261"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.vitoriadaconquistanoticias.com.br\/v2\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=78261"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.vitoriadaconquistanoticias.com.br\/v2\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=78261"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}