O Dia
Desde que deixou a Record, em novembro do ano passado, Tom Cavalcante tem lido várias especulações de que estaria negociando com as mais diversas emissoras. Até uma possível volta à Record já foi cogitada.
Mas a verdade é que Tom está em um período sabático, como ele mesmo conta na entrevista exclusiva a seguir. Em seu tempo livre, o humorista diz que gosta de cuidar da filha caçula, Maria Antônia, e ver novelas. “Agora sou noveleiro. Assisto ‘Avenida Brasil'”, disse ele, para depois cantarolar o começo da abertura da trama de João Emanuel Carneiro. O comediante vem ao Rio apresentar o espetáculo ‘No Tom do Tom’, no Vivo Rio, na próxima quinta-feira. A última vez que pisou em um palco da Cidade Maravilhosa foi ao lado de Chico Anysio, no espetáculo ‘Chico.Tom’. “Agora que Chico se foi, me pego horas e horas revendo nossas criações”, conta Tom, emocionado.
No show que você vai apresentar esta semana no Vivo Rio, estão incluídos vários números musicais. Como é essa porção cantor do humorista Tom Cavalcante?
O lado imitador de cantores, dentro do meu trabalho, nasce da influência de uma família muito musical e, mais tarde, dos meus primeiros movimentos em peças musicais pelos teatros de Fortaleza. Procuro estudar a voz dos cantores me aproximando ao máximo do jeitinho deles cantarem, incluindo olhares, postura e repertório.
O que rende uma boa piada pra você?
A boa piada não tem gênero. Pode vir das mais diversas situações. Quando temos um fato absurdo e que seja de domínio público, corro ali no computador e crio uma piada, um texto bem-humorado a respeito. Às vezes, funciona, às vezes, não.
Você fica nervoso quando uma das pessoas que serão imitadas por você está na plateia?
Quando estão presentes e eu tenho esta informação, fico tranquilo e capricho ainda mais na interpretação. O ruim é saber que ela esteve ali sem meu conhecimento.
Que personagem não pode faltar em um show seu?
As personagens que são conhecidas do grande público sempre são muito bem aceitas e até esperadas. Caso de João Canabrava, Jarilene, o velho nordestino e algumas imitações clássicas minhas, como Caetano, Fagner, Roberto Carlos.
Já houve uma situação engraçada em que você teve que improvisar?
Por me apresentar solo, às vezes, pintam situações que eu mesmo tenho que resolver. É diferente de um cantor que, no caso de esquecer a letra, a banda continua tocando! Me considero um bom improvisador para essas horas. Semana passada, na Bahia, o microfone me deu uma surra de microfonia. Transformei aquilo que seria um vexame num esquete onde o microfone era um tarado com um GPS na ponta e que buscava localizar seu técnico para um ‘love’. A minha tarefa era de segurar o cara. Fiz do problema uma piada.
Você já disse que Chico Anysio foi um pai para você, mas vocês tiveram uma discussão quando decidiu deixar a ‘Escolinha’ e seguir para o ‘Sai de Baixo’. Como foi ficar sem a amizade do Chico?
Nunca houve, efetivamente, a tal briga. Não se briga com um pai, como Chico foi para mim. O que aconteceu foi uma discordância de opiniões sobre a minha ida ou não para o ‘Sai de Baixo’. Um zelo que Chico teve com minha carreira até o final.
Depois que tudo se resolveu, vocês retomaram a amizade. Lembro que, inclusive, você esteve no hospital visitando o Chico Anysio. Como você recebeu a notícia da morte dele?
No período do ‘Sai de Baixo’, Chico me convidou para participar como João Canabrava na segunda fase da ‘Escolinha’. Aceitei de pronto e pudemos aprontar todas. Nos últimos dez anos de sua vida, estivemos muito próximos em realizações pessoais e profissionais. Nesse período, Chico criou e escreveu um programa para atuarmos juntos, o ‘Chico.Tom’. Com a minha saída da Globo, o projeto para TV acabou por se transformar no nosso show em parceria, com o mesmo nome, que foi um sucesso de público e bilheteria. Agora que Chico se foi, me pego horas e horas revendo nossas criações, músicas, imagens de shows gravadas pelo Brasil e momentos de bastidores das nossas animadas conversas. Um registro que me faz pensar que Chico não morreu. Ainda é muito recente para entender a sua saída de cena.
Chico era considerado um mestre do humor. Com a partida dele, você se considera um substituto do Chico?
A máxima de que ninguém é insubstituível cai por terra quando se fala de Chico. É olhar para sua rica obra e constatar. Tá para nascer.
Você saiu da Record porque o horário do ‘Show do Tom’ não o agradava. Mas rumores dão conta de que você estaria voltando para a Record. Existe alguma negociação?
No Brasil, e acho que pelo mundo, a opinião pública não assimila muito bem ainda a saída de um artista do ar por sua própria decisão. Geralmente, quando acontecem essas paradas, os motivos são brigas, dispensas, quebra de contrato, etc. Uma reação que só agora pude entender com o volume de notícias que tenho lido nas mídias sociais, Twitter, blogs, Facebook, jornais e revistas me colocando como contratado de alguma emissora todo o tempo. Chega a ser engraçado, não fosse a cobrança para que eu confirme a tal contratação. Nesse período, jamais me pronunciei nem negociei com emissora alguma. Acho que o exigente conceito atual de ser sucesso, estar na mídia, ter fama é algo dominante no inconsciente de todos. Penso diferente e faço o meu tempo. Quando pensei em parar foi uma decisão bem estudada junto à família e ao meu empresário. Há 20 anos estou na TV. Nos últimos sete anos eu dirigi, redigi, atuei e editei os programas. Uma tarefa duríssima para manter a atração consolidada na vice-liderança. Acho que merecia uma pausa sabática. Nos planos atuais, a prioridade é viajar com meus shows em turnês pelo Brasil, ler e criar o máximo possível de situações para um novo programa. Também é passar horas me dedicando a Maria e a sua infância, revisitar o inglês com aulas semanais, correr para a academia e malhar sem pressa. E o melhor: dormir tarde, lendo e assistindo a filmes e séries. Nesse período, já vi (as séries) ‘Touch’, ‘Alcatraz’, ‘Once Upon a Time’, ‘Revenge’. Ah, agora sou noveleiro também! Assisto ‘Avenida Brasil’. Io, io, iooo (risos).
O que você acha do deputado Everardo Tiririca?
Votei no Tiririca e ele, com sua dedicação e empenho, tem nota dez por ter estado em todas as sessões desde o início do mandato. Bem raro para o que temos visto.
E o que você acha do palhaço Tiririca?
Imbatível na sua arte de fazer rir. Um grande cara.
Vocês têm se falado depois que Tiririca se elegeu e você saiu da Record?
Sempre nos falamos por telefone. Hora dessas, vou a Brasília para um show e vamos por a resenha em dia.
Sente saudade da TV?
A televisão está em meu DNA. Uma hora dessas eu vou visitá-la.
Que programas de humor você assiste hoje?
Na TV aberta, curto o ‘CQC’ e o Carioca imitando o Boris no ‘Pânico’.
Como está sua carreira agora? No que você investe atualmente?
O foco são os shows. A temporada em São Paulo foi ótima, sempre sendo estendida devido à demanda de público. No total, oito meses em cartaz. Em março, comecei a turnê nacional. Agora é a vez de chegar ao Rio, depois de um longo tempo. A última apresentação na cidade foi ao lado do mestre, com o espetáculo ‘Chico.Tom’. Estarei no Vivo Rio na quinta e na sexta e convido a todos para momentos de desligar a cabeça dos problemas.
Qual é o seu personagem favorito?
Não tenho um específico. Curto todos.
Quando é que o humorista Tom Cavalcante chora?
Choro como brasileiro que se indigna com os maus-tratos dos nossos semelhantes nas portas dos hospitais. É muito triste ver isso em meio a tanta roubalheira.
O que é ofensivo no humor?
Agredir o outro de forma gratuita. Para mim, isso não é humor, é bullying.
Qual é o seu sonho de consumo?
Só tenho um sonho de consumo e que já realizo: estar ao lado de uma família sólida e interativa.
Você foi jogador de futebol no Ceará. Acha que, se tivesse investido na carreira, seria um bom jogador?
Fala baixo… (risos). Brinco que, depois que o Neymar surgiu, esqueçam que um dia eu quis ser um profissional da bola.
Como é o Tom Cavalcante pai de Ivete, Maria Antônia e Ivens? Você brinca muito com a caçula Maria Antônia?
Procuro ser um pai dedicado. Educar é umas das tarefas mais complexas nos dias de hoje. Procuro manter costumes, valores herdados de meus pais e que têm dado certo com a turma. Querer bem e querer o bem são distintos e duros de serem aplicados. Graças a Deus, tem dado certo. Tudo isso, é claro, com o suporte da Patrícia (Lamounier), que cuida de nós quatro (risos).
O que você faz nas horas vagas?
A criação acontece em todas as horas. Então a cabeça não para nunca. Nas férias, sempre viajamos em família. Este é um momento de estreitar ainda mais os laços afetivos.









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