Procedimento cresce no Brasil e devolve mobilidade a milhares de pacientes por ano, mas o sucesso depende tanto do trabalho do cirurgião quanto do que acontece nos meses seguintes.

Dona Lúcia, 67 anos, moradora de Jequié, no interior da Bahia, passou quase quatro anos adiando a cirurgia de prótese no joelho esquerdo. Não era falta de indicação médica.
Era medo da recuperação. Ouvia de vizinhas que a dor pós-operatória era insuportável, que levava um ano para andar direito, que muita gente ficava com o joelho duro.
Quando finalmente operou, em um hospital de Vitória da Conquista, se surpreendeu: estava de pé no dia seguinte, fez fisioterapia desde o primeiro dia e, em três meses, caminhava sem apoio de andador ou muletas.
A história de dona Lúcia ilustra dois problemas que se repetem no consultório de ortopedistas em todo o Brasil. O primeiro é a demora em aceitar a indicação cirúrgica, muitas vezes por medo da recuperação.
O segundo é a falta de informação sobre o que realmente acontece depois da artroplastia total de joelho, nome técnico do procedimento que substitui a articulação danificada por uma prótese.
A cirurgia de prótese de joelho é hoje um dos procedimentos ortopédicos mais realizados no mundo. No Brasil, os números do DATASUS mostram crescimento consistente ao longo da última década.
Um estudo publicado no Brazilian Journal of Health Review em 2024 analisou dados entre 2014 e 2023 e identificou que, após uma queda de 32% durante a pandemia de Covid-19, o volume de artroplastias de joelho se recuperou com aumento de 52% no período pós-pandemia, superando os números anteriores a 2020.
O represamento de cirurgias eletivas durante o isolamento social explica parte desse salto, mas o envelhecimento da população e o avanço da artrose na faixa etária acima dos 60 anos são os fatores estruturais que sustentam essa tendência.
O que acontece nas primeiras horas e nos primeiros dias
A mudança mais significativa na ortopedia de joelho nos últimos anos não está na sala de cirurgia. Está no protocolo de recuperação. Há duas décadas, era comum que o paciente ficasse imobilizado no leito por dias após a artroplastia.
Hoje, os programas de recuperação acelerada orientam que o paciente saia da cama nas primeiras 24 horas, sente na cadeira e comece exercícios leves com o fisioterapeuta ainda no hospital.
O Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia, referência no SUS para cirurgias de alta complexidade no joelho, orienta que entre o sétimo e o décimo dia após a cirurgia o paciente já consiga dobrar o joelho a 90 graus.
Médico referência em procedimentos minimamente invasivos no joelho, o Dr. Ulbiramar Correia atende em Goiânia e pontua que a mobilização precoce reduz o risco de trombose venosa e embolia pulmonar, complicações que preocupam especialmente em pacientes idosos e obesos.
A alta hospitalar costuma acontecer entre 48 e 72 horas após o procedimento, quando o paciente já caminha com auxílio de andador ou muletas e demonstra controle adequado da dor. Esse tempo pode variar conforme a idade, o estado clínico prévio e as condições da articulação antes da cirurgia.
As fases da reabilitação e o cronograma real
A recuperação não é linear. Tem fases distintas, cada uma com objetivos específicos. Nas duas primeiras semanas, o foco é o controle da dor e do inchaço, a proteção da cicatriz cirúrgica e o início dos movimentos passivos e ativos do joelho. O paciente caminha com andador e faz exercícios orientados pelo fisioterapeuta.
Entre a segunda e a sexta semana, o objetivo muda. O paciente começa a apoiar peso progressivamente na perna operada, reduz o uso do andador e passa para uma muleta ou bengala.
Exercícios de fortalecimento do quadríceps e dos músculos posteriores da coxa ganham intensidade. É nessa fase que muitos pacientes sentem uma melhora concreta e começam a recuperar confiança no joelho.
A partir do segundo mês, a reabilitação avança para exercícios funcionais: subir e descer escadas, entrar e sair do carro, levantar de cadeiras baixas. Por volta de três meses, boa parte dos pacientes já retoma atividades do dia a dia e pode voltar ao trabalho, dependendo da profissão.
As atividades físicas de baixo impacto, como caminhada, natação e bicicleta, costumam ser liberadas nesse período com acompanhamento médico.
A maturação completa da prótese leva cerca de um ano. Nesse intervalo, o osso se integra aos componentes metálicos, a musculatura se adapta à nova mecânica articular e o sistema nervoso recalibra os sinais de propriocepção, que são os estímulos que informam ao cérebro a posição e o movimento do joelho.
Por isso, mesmo quando o paciente já se sente bem aos seis meses, o processo biológico ainda está em curso.
O que pode dar errado e como evitar
A artroplastia total de joelho é considerada segura. Dados de acompanhamento de longo prazo indicam que mais de 90% das próteses implantadas continuam funcionais após 15 a 20 anos. A taxa de complicações graves é baixa, mas existe.
Infecção, trombose, rigidez articular e instabilidade do implante estão entre os riscos. A maioria deles pode ser minimizada com cuidados pré e pós-operatórios adequados.
O abandono da fisioterapia é o erro mais comum. Pacientes que interrompem a reabilitação antes do tempo indicado correm risco de desenvolver fibrose articular, uma condição em que o joelho perde amplitude de movimento e fica rígido. Recuperar essa mobilidade depois é muito mais difícil do que mantê-la com exercícios regulares nas primeiras semanas.
Outro fator que influencia o resultado é o estado do joelho antes da cirurgia. Pacientes que chegam ao procedimento com musculatura muito enfraquecida, deformidades severas ou quadros inflamatórios intensos tendem a ter recuperação mais lenta.
Por isso, programas de fisioterapia pré-operatória têm ganhado espaço. Preparar o corpo para a cirurgia melhora os resultados e encurta o tempo de reabilitação.
A escolha do especialista faz diferença no resultado
O volume de cirurgias realizadas pelo profissional é uma variável que aparece com frequência na literatura médica como indicador de qualidade. Ortopedistas que operam joelhos com regularidade acumulam experiência técnica e refinam protocolos de reabilitação que impactam diretamente o resultado.
A Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia recomenda que o paciente verifique a formação do médico, sua especialização em joelho e o número de procedimentos realizados.
Para quem busca médicos especialistas em joelho fora da sua cidade de origem, a distância nem sempre é obstáculo. Muitos centros de referência organizam protocolos em que o paciente viaja para a cirurgia, permanece na cidade durante a internação e as primeiras consultas pós-operatórias, e depois continua a reabilitação no seu município com fisioterapeuta local, orientado a distância pela equipe cirúrgica.
Vitória da Conquista, como polo regional de saúde do Sudoeste baiano, absorve pacientes de mais de 70 municípios para consultas e procedimentos ortopédicos. A Policlínica Regional atende 28 cidades da região, com a ortopedia entre as especialidades disponíveis.
Para casos de alta complexidade, parte dos pacientes precisa ser encaminhada a outros centros, o que reforça a importância de buscar informação qualificada sobre onde e com quem operar.
Robótica e precisão na artroplastia de joelho
A tecnologia de assistência robótica chegou à cirurgia de prótese de joelho no Brasil e tem expandido sua presença em centros privados e alguns hospitais de referência. Sistemas como ROSA Knee, Mako e CORI utilizam planejamento digital tridimensional e braços robóticos que auxiliam o cirurgião nos cortes ósseos e no posicionamento dos componentes da prótese.
A principal vantagem está na precisão. O software cria um modelo virtual do joelho do paciente antes da cirurgia, permite simular o tamanho e a posição dos componentes e orienta o braço robótico durante o procedimento.
O cirurgião mantém o controle em todas as etapas. O robô não opera sozinho; ele funciona como um instrumento de apoio que reduz a margem de variação nos cortes e no alinhamento.
Essa precisão tem impacto direto na recuperação. Estudos recentes indicam que pacientes submetidos a cirurgia de prótese de joelho robótica apresentam menor dor nos primeiros dias pós-operatórios, alcançam marcos de reabilitação mais rapidamente e têm menor necessidade de analgésicos fortes.
O alinhamento mais preciso dos componentes também contribui para a durabilidade do implante ao longo dos anos, embora estudos de acompanhamento de longo prazo ainda estejam em andamento.
A tecnologia não substitui a experiência do cirurgião nem dispensa a fisioterapia. Mesmo com assistência robótica, o resultado final depende do preparo pré-operatório, da qualidade da reabilitação e do comprometimento do paciente com o protocolo de exercícios.
A desigualdade no acesso às artroplastias no Brasil
Os números do DATASUS revelam um problema que vai além da técnica cirúrgica. A distribuição das artroplastias de joelho no Brasil é profundamente desigual.
Estudo publicado na Revista Brasileira de Ortopedia, com dados de 2008 a 2015, mostrou que as regiões Sul e Sudeste concentravam a maior parte dos procedimentos, com taxas de 8,07 e 6,07 artroplastias de joelho por 100 mil habitantes, respectivamente.
No Nordeste, a taxa caía para 0,98 por 100 mil habitantes. Na prática, isso significava uma cirurgia de prótese de joelho para cada 10.411 idosos na região, contra uma para cada 1.811 no Sul.
Essa disparidade não reflete diferença na prevalência da doença. A artrose atinge populações de todas as regiões. O que muda é a oferta de serviços especializados, o número de cirurgiões com formação em artroplastia e a capacidade dos hospitais para absorver a demanda.
No Estado do Rio de Janeiro, por exemplo, cerca de 12 mil pacientes aguardam na fila por prótese de joelho na rede pública, conforme dados divulgados pelo Hospital Universitário Pedro Ernesto.
Para os moradores do interior do Nordeste, a barreira é dupla. Faltam especialistas nas cidades menores e faltam vagas nos centros de referência das capitais e dos polos regionais. O resultado é que muitos pacientes convivem com dor e perda de mobilidade por anos antes de conseguir acessar o procedimento.
O que perguntar antes de decidir pela cirurgia
De acordo com o time de especialistas do COE, centro de ortopedia especializada com endereço em Goiânia, não existe um exame único que determine o momento exato para operar.
A indicação é construída ao longo do acompanhamento médico, com base na resposta aos tratamentos conservadores, no grau de comprometimento da articulação visto em exames de imagem e, acima de tudo, no impacto da dor sobre as atividades diárias do paciente.
Antes de aceitar ou recusar a indicação cirúrgica, vale perguntar: qual é a experiência do cirurgião com artroplastias de joelho? Quantos procedimentos ele realiza por ano? Como funciona o protocolo de recuperação e fisioterapia? Qual é o tempo estimado para voltar a caminhar sem apoio? Quais são os riscos e como preveni-los? Existe programa de fisioterapia pré-operatória disponível?
A prótese de joelho não é o fim de um problema. É o começo de uma nova fase. E o resultado dessa fase depende tanto da técnica cirúrgica quanto do trabalho que vem depois.
Fisioterapia, controle de peso, exercício regular e acompanhamento médico periódico formam a base que sustenta uma prótese funcional e uma vida com mobilidade por muitos anos.













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