A capacidade instalada baiana já passa de 2,4 GW em grandes parques solares, mas a adoção de sistemas em residências e comércios do sudoeste segue distante de capitais como Salvador e Feira de Santana, mesmo com índices de irradiação acima de 6 horas por dia

A Bahia ocupa hoje a segunda posição no ranking nacional de geração centralizada de energia solar, atrás apenas de Minas Gerais. Os números mais recentes da Agência Nacional de Energia Elétrica mostram que o estado tem 2,4 gigawatts (GW) de capacidade instalada em grandes parques fotovoltaicos.
Em 2025, segundo o Relatório de Acompanhamento da Expansão da Oferta de Geração de Energia Elétrica, a Bahia foi o terceiro estado que mais ampliou potência elétrica no país, somando mais de 1.000 MW novos em onze meses, com forte protagonismo das usinas solares.
Para um estado que reúne 417 municípios com algum nível de geração distribuída e que apresenta índices de irradiação solar superiores a 6 quilowatts-hora por metro quadrado por dia, o salto faz sentido. O sudoeste baiano, e em particular Vitória da Conquista, concentra parte significativa dessa vantagem geográfica.
Estudos da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, conduzidos a partir de dados coletados pela estação meteorológica do INMET no campus local, registraram média de 6,4 horas de insolação diária no município, com geração de painéis fotovoltaicos variando entre 60% e 100% da potência instalada nos meses de outubro a abril. O paradoxo, porém, é visível.
O contraste entre o gigante estadual e a realidade do sudoeste
Apesar de a Bahia liderar em geração centralizada, na geração distribuída, modalidade que envolve sistemas instalados em casas, comércios, indústrias e propriedades rurais, o estado ocupa apenas a oitava posição nacional.
Os dados consolidados pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Bahia indicam pouco mais de 1,3 GW instalados nessa categoria, número modesto frente aos mais de 4,4 GW de São Paulo e aos 3 GW de Minas Gerais.
Vitória da Conquista, terceira maior cidade baiana, com cerca de 339 mil habitantes segundo o IBGE, aparece entre os municípios de destaque desse cenário, com aproximadamente 6 mil unidades consumidoras conectadas a sistemas próprios.
O número soa expressivo até a comparação chegar: Salvador, capital do estado, registra 11 mil unidades, enquanto Camaçari e Feira de Santana ultrapassam 9 mil cada uma. A relação per capita coloca Vitória da Conquista atrás de cidades menores e com economia menos diversificada.
A questão não está na luz solar disponível. Está na adesão. Pesquisas acadêmicas conduzidas no município mostram que sistemas comerciais instalados na cidade pagam o investimento entre quatro e cinco anos, prazo competitivo frente a outras formas de aplicação financeira de baixo risco.
Mesmo assim, a microgeração solar avança devagar no comércio local, no agronegócio do entorno e em residências da classe média conquistense.
Por que o investimento ainda emperra
A barreira mais citada por especialistas do setor é o custo inicial. Um sistema fotovoltaico residencial típico exige aporte que pode variar de R$ 12 mil a R$ 40 mil, dependendo do consumo da casa, da quantidade de painéis e da qualidade dos inversores.
Em uma região onde parte significativa do consumidor mediano financia geladeira em doze vezes, o tíquete inicial assusta, ainda que linhas de crédito específicas para energia solar tenham se multiplicado nos últimos anos.
Outro ponto está no desconhecimento sobre a Lei 14.300, sancionada em 2022, que estabeleceu o marco legal da microgeração e minigeração distribuída. A regra preserva a regra antiga de compensação total para quem entrou no sistema antes da virada de 2023 e estabelece transição gradual para os novos consumidores.
Muita gente ainda não entendeu o suficiente sobre essas regras, e parte do mercado adia a decisão de investir por receio de perder a vantagem econômica que viu o vizinho conseguir há cinco anos.
Há também o componente técnico. Telhados mal orientados, sombreamentos não previstos, falhas no dimensionamento e instalações sem responsabilidade técnica registrada no CREA produzem sistemas que entregam menos do que o prometido na hora da venda. Quando isso vira história contada no bairro, o efeito é direto: o vizinho que pensava em instalar desiste.
A escolha de uma empresa especializada em energia solar com corpo técnico próprio, equipamentos homologados pela Coelba e Anotação de Responsabilidade Técnica em cada projeto se tornou, nesse cenário, o filtro mais relevante para quem decide migrar para a geração própria.
O setor amadureceu o suficiente para que o critério de escolha não seja mais o preço, e sim o histórico de instalações concluídas, a garantia oferecida pelo integrador e a clareza sobre os equipamentos usados.
Quem está investindo no sudoeste e o que isso muda
Comércios de médio porte, postos de combustível, clínicas, escolas particulares, frigoríficos e produtores rurais formam o grosso da demanda atual em Vitória da Conquista e nos municípios do entorno.
Esses consumidores têm dois fatores em comum: contas mensais altas o suficiente para que a economia gerada pague o investimento em poucos anos, e gestão profissional o suficiente para enxergar o sistema fotovoltaico como ativo, não como gasto.
Para o agronegócio do sudoeste baiano, em especial cafeicultores e produtores de leite, a queda no custo da energia tem efeito direto na margem.
Sistemas de irrigação, ordenha, refrigeração e secagem de grãos representam fração relevante da fatura mensal, e a substituição da energia comprada da concessionária por energia gerada na própria propriedade muda a estrutura de custo do negócio.
No varejo de Vitória da Conquista, supermercados e lojas com climatização intensa começam a estampar painéis nos telhados como parte da estratégia de redução de despesas fixas.
A conta é fria: um estabelecimento que paga R$ 8 mil por mês em energia consegue, com um sistema bem dimensionado, reduzir esse valor para algo entre R$ 800 e R$ 1.500, mantendo apenas a tarifa mínima e os tributos obrigatórios.
O que a Bahia projeta para os próximos anos
As projeções da Aneel e da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica indicam que, até 2030, o estado pode chegar a 27 GW de potência solar instalada, com mais de 630 parques em operação.
As estimativas da Secretaria de Desenvolvimento Econômico apontam para R$ 89 bilhões em investimentos acumulados até o fim da década e a geração de até 748 mil empregos diretos e indiretos em toda a cadeia produtiva.
Para Vitória da Conquista, o futuro próximo passa menos pelos grandes parques, que se concentram em municípios como Bom Jesus da Lapa, Tabocas do Brejo Velho, Itaguaçu da Bahia e Santa Rita de Cássia, e mais pela ampliação da geração distribuída no comércio, no agronegócio e na construção civil.
Construtoras locais já começaram a oferecer empreendimentos residenciais com sistema fotovoltaico embutido no projeto, prática que reduz o custo de instalação por unidade e acelera o retorno para o morador.
A presença da UESB, da UFBA e de outras instituições de ensino na região cria, ainda, um pool de profissionais qualificados em engenharia elétrica, mecânica e ambiental.
Esse capital humano local é o que tende a sustentar o crescimento do setor solar na cidade nos próximos anos, com integradores fundados por engenheiros formados no campus de Vitória da Conquista assumindo parcela crescente do mercado regional.
A decisão que pesa no bolso por 25 anos
Painéis solares modernos têm vida útil acima de 25 anos. Inversores costumam durar de 10 a 15 anos antes da primeira troca. Esse horizonte muda a forma como o investimento deve ser pensado: não como uma compra comum, e sim como infraestrutura.
Quem instala em 2026 vai usar o sistema até depois de 2050. A escolha do equipamento, do integrador e do projeto técnico precisa estar à altura desse prazo.
Para o consumidor de Vitória da Conquista que ainda olha de longe para o telhado do vizinho coberto de placas, o cálculo nunca foi tão favorável.
Tarifas elétricas reajustadas acima da inflação ano após ano, custo dos equipamentos em queda, financiamento bancário facilitado e mão de obra técnica disponível na própria cidade compõem um cenário em que adiar a decisão custa mais do que tomá-la.
A Bahia já provou, nos grandes parques solares do oeste e do norte do estado, que sabe transformar luz em energia em escala industrial. Falta espalhar a mesma lógica nos telhados de quem mora, trabalha e produz no sudoeste.
O potencial está no ar, ou melhor, no sol que bate firme sobre Vitória da Conquista mais de seis horas por dia, todos os dias do ano.












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