Tribuna da Bahia
Se o governador Jaques Wagner (PT) já selou o caminho para uma relação mais próxima com o prefeito João Henrique, recém-filiado ao PP, o presidente do PT, Jonas Paulo, rejeita essa possibilidade. Segundo ele, a legenda assina o compromisso institucional de ajudar a cidade, mas já rascunha a chance de substituir o atual projeto por outro que tenha o DNA do PT em 2012. Nesta entrevista à TB, o dirigente petista exalta a unificação da base estadual, descarta qualquer ameaça de estremecimento com o PP e aproximação com o PMDB. Jonas também ressalta a criação do PDB como uma janela necessária para os insatisfeitos e para alteração nas relações democráticas dentro dos partidos.
TB- Com o ingresso do prefeito João Henrique no PP, o que muda para o PT?
JP – Primeiramente, o PT afirma seus compromissos com a cidade, os investimentos estaduais, federais, a garantia da estabilidade política institucional para que possa efetivamente esse governo possa transcorrer até o final do mandato. Agora entendemos que é necessária a substituição desse projeto de Salvador por um outro projeto nas eleições. Um projeto que tenha o nosso DNA, que tenha os princípios e os conceitos que orientam o nosso projeto de mudança no nosso plano estadual e federal.
TB – Existe a possibilidade de o PT construir o apoio que o governador Jaques Wagner defende?
JP – O governador Jaques Wagner tem dialogado conosco, primeiro sobre as responsabilidades de governo que nós temos no estado da Bahia, das parcerias que nós temos com o governo federal, e da importância de Salvador como centro político, centro administrativo, coração de nosso estado e entende junto conosco que é necessário construir parcerias administrativas para se garantir a estabilidade política e o cronograma da cidade para preparação da Copa do Mundo e para a cidade usufruir os investimentos federais neste momento virtuoso que nós vivemos no país. Agora, daí ao processo de sustentação política a distância é muito grande. Nós temos uma postura clara e objetiva da necessidade prioritária da construção de uma alternativa política para governar Salvador a partir de 2013.
TB – Como avalia o governo João Henrique? Principal erro e acerto.
JP- Foi um governo marcado por instabilidade permanente, seja no ponto de vista da identidade político-partidária, seja no sentido dos seus objetivos e de suas estratégias, seja no tocante ao que se propôs e que ao longo desses quase sete anos apresenta como resultado muito aquém do que foi proposto. Propôs-se uma administraçãodemocrática, inovadora e participativa e definitivamente isso não se materializou. Portanto é um governo que tem problemas seríssimos na sua estabilidade e sustentação, busca caminhos para concluir o seu mandato e acho que não conseguiu de fato atender o que era a expectativa da população de Salvador e, portanto, é necessário para nós que ele conclua o seu mandato, pois Salvador não suporta mais crises, principalmente em um momento tão importante de investimentos. Por fim, acho que é um governo que não conseguiu atingir aquilo que se propôs, tanto que diversos partidos de esquerda apostaram na sua iniciativa no seu primeiro momento, mas depois se afastaram dela e foram buscar outro caminho para a sua relação e a defesa dos interesses da cidade.
TB – Temem que o PP vire o PMDB da vez? A história se repete?
JP – O PP é um parceiro privilegiado, um grande parceiro que esteve conosco nos momentos mais difíceis, consolidando conosco esta caminhada. O PP na Bahia teve um papel importante, mesmo o PP nacional não integrando a coligação da presidenta Dilma, se posicionou ao nosso lado. O PP tem sido um partido de sustentação do nosso projeto na Assembleia. Agora acho que o que nós temos de demonstração de tentativa de desestabilização do processo não foi de sucesso. Como já houve uma tentativa com insucesso flagrante ,eu acredito que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Ainda mais quando sabe que a primeira o para-raio neutralizou. Então eu não acredito de forma nenhuma nisso, mas acredito sim na parceria com o PP.
TB – Como está a discussão sobre 2012? Vão construir o consenso em torno do candidato do PT? Essa é a hora do partido assumir o Thomé de Souza?
JP – Olha, esse debate da sucessão deve passar pela instância do município. É lógico que como ocorre em todas as principais cidades, trata-se de um processo acompanhado pela direção estadual. Nós construímos aqui uma articulação de presidentes estaduais de partido, que inclusive nos reunimos no dia de hoje e estamos traçando uma tática comum, uma abordagem comum para garantir o máximo de unidade das forças da base do governo nas eleições de 2012 nas principais cidades do estado e onde puder se alastrar, mas com foco nas 20 principais cidades. Salvador, logicamente, é a principal cidade. O PT tem quadro para oferecer, tem o desejo de governar a cidade, tem a liderança do processo político, mas o PT entende que é necessário construir primeiro a unidade das forças para depois pensar na candidatura. O fundamental é garantir essa unidade em torno de um novo projeto para a cidade e um novo projeto que tem a cara de nosso projeto de mudança estadual e federal. Estamos prontos para assumir a responsabilidade se for o desejo das forças que compõem conosco o projeto nacional e estadual.
TB- O deputado federal Pelegrino é o principal candidato do PT ou o partido não consegue construir essa unidade interna sobre o assunto?
JP – Não. A tendência do partido é uma construção unitária. Hoje nós temos discutido bastante sobre Salvador e temos uma compreensão de que a unidade é perfeitamente possível em torno de um nome, mas queremos construir a coesão das forças políticas que compõem a base do governador Jaques Wagner e apontar este nome. O companheiro Pellegrino é o nosso deputado mais votado na capital, tem toda a sua atuação política focada na capital, é o deputado que tem alta popularidade na capital e pode perfeitamente ser o nosso candidato, mas preferimos discutir com todas as forças, primeiro o projeto, as nossas responsabilidades e principais intervenções para cidade, e a partir daí discutirmos a nossa frente política e a candidatura, que nós desejamos obviamente que seja construída a nossa, mas precisamos discutir com nossos aliados. Essa não é uma decisão para agora.
TB- O PT municipal é uma instância separada da estadual? O sr. acredita que eles vão orientar os vereadores na Câmara de que forma? Qual será o posicionamento da bancada do PT com relação à gestão do prefeito João Henrique?
JP – Não existem diferenças entre o PT municipal, estadual, nacional em relação ao projeto. Nós todos somos parte de um mesmo projeto, de uma mesma compreensão política, de uma mesma construção. Salvador é a terceira capital do país, então a eleição de Salvador não tem uma dimensão pequena, mas é uma eleição de caráter e repercussão nacional então, portanto, a sua eleição passa pela instância municipal que conduz esse processo, mas passa pelo acompanhamento da instância estadual e nacional. É claro que nós governamos o Brasil e a Bahia e por isso temos todo o interesse na eleição de Salvador e vamos nos posicionar junto com a nossa bancada de forma unitária e de forma articulada. Há uma harmonia perfeita entre a instância municipal e estadual e obviamente um acompanhamento permanente da nossa instancia nacional sobre os debates em torno de nossa capital e demais cidades do estado.
TB- O Sr. acredita que o PP chega como uma tábua de salvação na gestão municipal?
JP- Eu acho que o projeto inicialmente pensado para Salvador que foi vitorioso na primeira eleição e que no segundo turno da segunda eleição contou com o apoio de todas as forças progressistas do estado não foi bem-sucedido porque não foi agregador, não teve capacidade de manter agregadas as forças, ao contrário, passou por um processo de grave crise com saída e entrada de partidos, inclusive agora no seu final mergulha na sua maior crise. Acho que não vejo como esse projeto ter continuidade. Acho que a partir de outubro se falará pouco do governo e Salvador e mais sobre a sucessão. Acredito que o PP, ao participar, encontrou essa forma de garantir a estabilidade do governo e irá fazer aquilo que está na meta e nas possibilidades desse governo que é concluir o mandato.
TB – Colbert, do PMDB, já ocupa cargo no governo Dilma. O que fariam se Geddel fosse nomeado também?
JP- O PMDB é um aliado nacional, um aliado importante, apesar de que o PMDB da Bahia incorreu em um erro grosseiro ao participar de um processo de mudança com a mesma intensidade do nacional, não havia diferença entre os projetos liderados por Lula e por Wagner naquele momento. Mas eles procuraram um caminho de desestabilizar o projeto estadual e foram mal-sucedidos, não foi uma experiência de sucesso. Tanto é que o PMDB diminuiu o seu tamanho, o seu espaço e a sua força política e, portanto, cabe ao PMDB, com toda legitimidade, se reposicionar e buscar o seu espaço.
TB – Existe alguma chance de reaproximação no estado?
JP- O PMDB buscou o seu caminho e ao buscar o seu caminho ele está certamente vivendo dos resultados da opção que fez que aos olhos de todos não foi uma opção correta. Agora cabe ao PMDB buscar se reposicionar com a autonomia que tem o partido e nós seguimos aqui mudando a Bahia.
TB- Como estão as articulações para divisão de cargos do segundo escalão na Bahia e no governo federal? Há algum tipo de tensionamento nesse processo?
JP- Temos reunido os partidos e acho que existe uma compreensão consensual sobre os critérios, os métodos de montagem do governo. Acredito que isso vai se dar de uma forma tranquila, valendo como antecipação das relações para 2012. Mas posso adiantar que o clima é de entendimento entre os dez partidos que compõem a base.
TB- A falta de oposição ou a fragilidade da bancada na Assembleia preocupa o PT?
JP- Obviamente, na democracia não vamos querer que não exista oposição. A oposição é essencial ao processo político verdadeiramente democrático e devemos respeitar o espaço da oposição. Acredito apenas que como nessa eleição nós construímos uma tática vigorosa, quando conseguimos a maior vitória política do país – em nenhum estado houve uma vitória tão retumbante no ponto de vista interno como essa do PT da Bahia, pois trabalhamos não apenas contra um, mas contra dois e derrotamos os dois no primeiro turno -, então acredito que a oposição vai encontrar o seu lugar e vai exercer o seu papel democrático que é nos acompanhar, nos fiscalizar.
TB- Marcelo Nilo é um virtual candidato a 2014. É uma ameaça para o PT?
JP- Acho que o Marcelo Nilo é o grande presidente da Assembleia Legislativa que está no seu terceiro mandato com o nosso apoio. Acho que é um grande parceiro, um parceiro essencial na estabilidade política no nosso projeto de mudança no estado. Mas 2014 é muito cedo. Primeiro vamos ver 2012. Dentro do partido temos grandes nomes, temos potencialidade para essa disputa. Todos citam diversos nomes dentro do PT, posso alinhavar alguns como o companheiro José Sergio Gabrielli, o prefeito Luiz Caetano, a prefeita Moema Gramacho, o próprio senador Walter Pinheiro. Mas primeiro vamos tratar e ganhar as eleições 2012.
TB – Otto, articulador habilidoso, também é uma ameaça aos planos do partido na sucessão de Wagner?
JP- Não. O Otto foi uma pessoa essencial pra nossa vitória, um ponto de estabilidade no centro do nosso projeto em 2010. É uma liderança política que tem capilaridade no interior, com suas relações políticas municipais, prefeitos. É um parceiro de caminhada, tem demonstrado fidelidade nessa caminhada. Pode até compor algo lá na frente, mas eu acredito que a sua construção se dá por dentro de nosso projeto. É isso que temos conversado, que temos dialogado com o governador e com ele próprio. E acho que é com essas forças que vamos construir o projeto de 2014.
TB- E a criação do PDB. Como o PT baiano observa essa movimentação? Concorda que ele será um partido da boquinha, com o objetivo de agregar insatisfeitos que queiram ir para a base do governo?
JP – O nosso sistema partidário é “escroto”, pois os partidos viraram capitania. Os partidos têm donos e isso virou problema pra a disputa democrática dentro dos partidos. O PT é o único que faz eleições diretas. Eu sou presidente eleito com 73% dos votos de 28 mil petistas que votaram. Mas não é isso que ocorre em todos os partidos. Isso é uma pena. Muitos não têm a elasticidade interna e a permeabilidade das diferenças, e isso gera distorções. Nós somos profundamente a favor da fidelidade partidária, mas somos a favor também da democracia interna dentro dos partidos. E quando as legendas têm dono, não tem democracia interna. Então acho que o PDB, mais do que uma nova possibilidade, será importante na acomodação daqueles que se sentem com seus espaços fechados nos partidos em que estão.









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