Tribuna da Bahia

A Bahia conta atualmente com 17.035 médicos ativos, conforme o Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia (Cremeb). Embora a Organização Mundial de Saúde (OMS) não tenha um mínimo padrão, o total de profissionais baianos (um para cada 823 habitantes) é tido como satisfatório por estudos da área – segundo o Censo 2010, do IBGE, a Bahia possui pouco mais de 14 milhões de habitantes. O grande entrave é a concentração dos médicos, pois 10153 (60%) do contingente baiano estão na capital, enquanto 6.882 são distribuídos em 416 municípios.
“Esta concentração é natural, ocorre em todas as áreas, mas o que mais tem impactado é a falta de perspectiva do médico ao optar por centros menores. As condições de trabalho são inadequadas, há uma sobrecarga de responsabilidades, a remuneração é muito baixa e pior ainda, é incerta, irregular e depende de variáveis que fogem ao controle do profissional”, avalia o presidente do Cremeb, José Abelardo Garcia de Meneses. Há programas públicos de estímulo a retenção dos médicos no interior, com salários de até R$ 12 mil, mas nem assim a busca pelo trabalho longe da cidade grande cresce.
Embora seja uma profissão tida como das mais bem remuneradas, o nível de retorno também é criticado pelo médico Luís Pinto Coelho. “Faço três plantões de 24 horas por semana para poder manter meu padrão de vida, com 50 anos de idade”, afirmou Luís Pinto Coelho, que possui quatro especialidades: ortopedista, emergencista, além de ser especializado em Medicina Desportiva e Medicina do Trabalho. Coelho argumenta que, além das despesas pessoais, investe com recursos próprios nas especializações, arcando com despesas de R$ 200 a R$ 2 mil com livros, além da mensalidade de R$900 em dois anos de curso. “Enquanto isso, o SUS me paga R$ 90 para fazer uma limpeza cirúrgica de uma fratura”, critica.
Luiz Pinto Coelho cita dificuldades da profissão, mas não se diz desgostoso com ela. “Não tenho o que reclamar da Medicina. É uma profissão que você tem que gostar e eu gosto. Outro dia fui parado na rua por uma paciente que tratei há 20 anos e me reconheceu. É esse salário moral que recompensa”. No sistema público, o salário base para início de carreira é de R$ 713,81! Com a gratificação de R$ 1.312,06, o vencimento bruto pode chegar a R$ 2.025,87 (para plantão de 12 horas, com acrescimento de R$ 1.000 se for plantão de 24 horas).
O presidente do Sindicato dos Médicos, José Cayres, endossa a avaliação de Coelho. “Para ter uma boa remuneração, o médico acumula três empregos. Isso afeta na sua qualidade de vida e no seu trabalho. É desumano você sair de um plantão de 12 horas direto para outro plantão”, completa. Curiosamente, a remuneração foi uma das motivações que levou o fisioterapeuta Tales Costa Ramos, 30, a iniciar um curso de Medicina. A mudança de áreas foi iniciada há três anos, junto com o irmão gêmeo e também fisioterapeuta Tadeu. “O retorno financeiro é importante, não vou ser hipócrita, mas não é só isso. Ser médico é mais complicado, mas a gente gosta de trabalhar servindo e com pessoas”, afirmou Tales.
José Cayres avalia que a responsabilidade do médico é grande. No entender do sindicalista, outros segmentos da sociedade deveriam se comprometer mais com a melhoria da saúde. Cayres reclama ainda que quando há um problema, como o recente caso de uma mãe paraense que perdera dois gêmeos no parto por demora no atendimento, a punição recai sobre o médico e toda a atividade profissional acaba sendo questionada. “Deviam tratar excepcionalidades como exceções”, disse.
Bahia está presente nas pesquisas
José Abelardo Meneses avalia o médico baiano no mesmo nível técnico-científico de qualquer estado do país. Cita como exemplo a presença baiana em pesquisas de ponta, com as que estudam as células-tronco. Contudo, considera a formação médica ainda carente no aspecto humanitário. ”As gerações de médicos têm sido graduadas sem o cuidado necessário em se lapidar seres humanos para cuidarem do sofrimento, da dor e desesperança da população assistida.
Quem deseja ser médico deve antes de tudo gostar do ser humano”, pontua o presidente do Cremeb. “Para os que desejam ser médicos um conselho que extraí de um livro do professor. Protásio Lemos da Luz, “Só faz Medicina quem gosta de gente”, frisa Meneses. Cayres e Braga pontuam que por princípio ético o médico jamais pode recusar um paciente. Para Júlio Braga, a Medicina é uma atividade baseada na confiança recíproca entre médico e paciente. O cardiologista se recente de barreiras jurídicas por quem aplica o Código de Defesa do Consumidor.
São seis escolas de medicina
Existem hoje seis escolas de Medicina na Bahia, sendo três no interior (Feira, Conquista e Ilhéus), que formam uma média de 550 médicos por ano. “Um número significativo de jovens médicos graduados em outros estados vem em busca de aprimoramento técnico-científico (Residências). Ao final dos respectivos treinamentos muitos fixam residência na Bahia, notadamente em Salvador”, destacou Menezes.
José Abelardo Meneses entende que como no Brasil adota-se uma Medicina “científica-ocidental”, quem quiser ingressar nesta atividade não pode deixar de atender este aspecto. “Quem deseja ser um bom médico, além de ser um cidadão bom, precisa estar atualizado com as práticas médicas. A velocidade com que estas informações são lançadas é tão intensa que acompanhá-las já é um exercício extraordinário”.
Cardiologista há 20 anos, Júlio Braga inclui o aspecto ético no lidar com a confiança depositada no profissional. “Quem faz o bem (na parte ética) acaba fazendo bem o seu trabalho”, acredita.












@vitoriadaconquistanoticias
Grupo WhatsApp