O Dia
No seleto grupo dos grandes autores de telenovela do Brasil, uma mulher aparece na liderança. Gloria Perez coleciona vários sucessos. E quando falamos em sucesso, não nos limitamos à audiência. Uma novela de Gloria Perez é sinônimo de excelentes vendas nas feiras internacionais de TV.
‘Barriga de Aluguel’, ‘Explode Coração’, ‘O Clone’ e ‘Caminho das Índias’ não nos deixam mentir. O que todas essas tramas têm em comum? A resposta é simples: o amor. Histórias de amor são o forte de Gloria e, neste assunto, ninguém chega a seus pés. E como o amor é uma língua universal, suas novelas ultrapassam qualquer fronteira de idiomas. É com enorme prazer que esta modesta coluna dedica duas páginas da edição deste domingo à grande autora, que começa amanhã mais uma história, ‘Salve Jorge’. Leia e conheça melhor Gloria Perez.
Tem autor que não gosta de ver o sucesso de uma outra novela, ainda mais quando ela antecede o trabalho desse autor. ‘Avenida Brasil’ é um fenômeno. Isso não acaba prejudicando ‘Salve Jorge’?
Leo, é uma estupidez sem limites torcer contra outro autor: o sucesso de qualquer um de nós é o sucesso do gênero novela, e o gênero não existiria se só um de nós fosse bem- sucedido. Além do mais, o sucesso da novela que antecede à nossa nos favorece sempre, garante um ponto de partida melhor em relação à audiência. Se ela fracassa, quem vem depois sai perdendo.
Após ‘Avenida Brasil’ não haverá uma rejeição natural à trama seguinte?
Desde sempre, qualquer novela começa com números muito menores do que a que terminou! Foi assim quando ‘Avenida Brasil’ sucedeu ‘Fina Estampa’, será assim quando ‘Salve Jorge’ suceder ‘Avenida Brasil’. Isso é o esperado. Existe um luto natural pela novela que acaba, e uma sensação de não querer se escravizar à outra história. As novelas vão ganhando velocidade e público à medida que se desenrolam.
Você já foi convidada para trabalhar na Record? E qual foi sua resposta?
Não fui.
Conte um pouco como é a sua rotina quando uma novela sua está no ar. A que horas você acorda, a que horas vai dormir, conte que você não escreve novela em casa, se vai a pé ou de carro ao seu escritório?
Eu escrevo no escritório. Vou pra lá de manhã e volto de tardinha. Trabalhar em casa é complicado, tem a Jade (personagem vivida por Giovanna Antonelli em ‘O Clone’), minha cachorrinha, que quer toda atenção pra ela. Escrevo em pé, sim, por causa da coluna. São seis, sete horas para finalizar um capítulo, se você está sentada acaba saindo da posição correta, e aquele jeitinho que parece mais cômodo termina numa crise de coluna!
São Jorge é um santo que está, ao mesmo tempo, ligado ao candomblé e ao catolicismo. Você não acha que isso pode provocar uma rejeição do público evangélico?
O foco não é o santo, é o mito do guerreiro que São Jorge representa, não só aqui no Brasil, mas em todo o mundo. De acordo com o mito, São Jorge é essa força guerreira que podemos acordar em nós para vencer os dragões de todo dia. Isso não tem nada a ver com religião. O que me levou a falar do mito foi a admiração pela força guerreira da gente do (Complexo do) Alemão, que suportou durante tantos anos o domínio dos traficantes, e agora usa essa mesma força que os permitiu sobreviver a condições tão adversas para escrever uma página nova de sua história.
Imagino que escalar um elenco para uma novela seja uma tarefa difícil. Os atores viram seus melhores amigos de infância quando sabem que você está escrevendo?
Atores de verdade não precisam disso, e é com eles que eu gosto de trabalhar
Tráfico de mulheres é um tema polêmico a ser abordado. Como surgiu a ideia?
Vou falar de tráfico de pessoas: é amplo. Tráfico para sexo, trabalho e adoção. Esse é um drama que está do nosso lado e permanece invisível. As pessoas ainda acreditam que se trate de mais uma lenda urbana. Sabe quanto rende por ano essa escravidão do século 21? 32 bilhões de dólares!
Existem algumas lendas sobre suas novelas. Uma delas é que você tem atores que são seus “pés de coelho”. É verdade? Quem seriam eles?
Tive um só, que eu chamava “meu pé de coelho”. Já morreu e é insubstituível pra mim: Mário Lago.
Neusa Borges é sempre muito grata a você, que dá oportunidade de trabalho a ela em suas novelas. Você sempre pensa em um papel pra ela?
Neusa é uma atriz esplêndida, na comédia e no drama. Eu nunca escrevo pensando no intérprete. Primeiro nasce a personagem, depois é que vejo quem melhor poderia dar vida a ela.
Por que você nunca chamou Susana Vieira para fazer uma novela sua?
Era tudo o que eu queria! Trabalhei com ela uma vez: a Susana fez ‘Partido Alto’ comigo e foi um sucesso. Se não repetimos a dose foi por absoluta falta de oportunidade. Todas as vezes que quis chamá-la, ela estava saindo da novela anterior, fazendo a seguinte ou presa numa minissérie! Adoraria voltar a trabalhar com ela!
Com quem você ainda não trabalhou e tem vontade de trabalhar?
Glória Menezes. Faz tempo que combinamos esse encontro, mas também sempre calha de ela estar em outra produção.
O papel de Morena seria de Juliana Paes, mas ela estava reservada para ‘Gabriela’. É verdade? Isso te chateou?
Lógico que não! Estamos lidando o tempo todo com essa possibilidade de troca de elenco. Faz parte. Realmente, eu tinha convidado a Juliana, mas quando foi batido o martelo que ela faria ‘Gabriela’, escrevi a personagem já pensando na Nanda Costa. São Morenas completamente diferentes.
Como você chegou ao nome de Nanda Costa para o papel principal?
Pelo trabalho dela. Na televisão, a Nanda fez papéis menores, mas sempre significativos. Já no cinema, foi protagonista de muitos filmes premiados, e tem colecionado prêmios de melhor atriz por esses desempenhos, tanto no Brasil quanto no exterior. É uma atriz visceral. Tudo o que eu precisava para contar a trajetória tão difícil da personagem central dessa história.
Você tem noção do poder que você tem nas mãos? Você tem noção que você é capaz de mudar radicalmente a vida de uma pessoa? O maior exemplo é Giovanna Antonelli, que se tornou diva da TV brasileira graças ao sucesso de ‘O Clone’.
Sim. Mas o que posso fazer é dar oportunidade ao talento, é botar a pessoa na cara do gol. Marcar, vai depender dela. Tenho orgulho de ter apresentado a Giovanna e a Cláudia Abreu ao grande público, como protagonistas. E é a mesma chama, a mesma força que enxerguei nelas, que reconheço na Nanda.
Como você lida com o ego dos atores?
Ego inflado demais é uma coisa complicada. Não tenho paciência não.
Você pensa em se aposentar?
Deus me livre! Nem me passa pela cabeça! Ainda tenho muita história pra contar!
Como é a Glória em casa, de folga?
Leio, vou ao cinema, danço, encontro os amigos, arrumo as gavetas, curto a vida como todo mundo.
Qual é o seu prato preferido?
Pato no tucupi.
Você tem alguma superstição?
Não gosto de chinelo virado.
Tem autores que fazem numerologia com o nome da novela. Você já fez isso?
Taí. nunca!
Cite quais são as suas grandes apostas em ‘Salve Jorge’?
Acho que é uma novela que vai emocionar, rir e fazer pensar. Torço também para que essa história seja capaz de mudar a vida de pessoas reais, fortalecendo a autoestima do pessoal do Alemão, promovendo o reencontro dos jovens que foram traficados ainda bebês para fora do país com suas famílias, e ajudando a libertar outros tantos brasileiros que hoje estão em outros países, escravos de máfias que vivem do tráfico humano.









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