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Léo Dias: ‘É como se eu tivesse 20 filhos’, diz Lucinha Araújo sobre a Sociedade Viva Cazuza

fonte_odiaO Dia

leo_diasNo dia do nascimento de Jesus, a coluna dedica o espaço à mulher que cuida de 20 crianças que já nasceram com o que muita gente considera como o fim da vida: a Aids. Em 7 de julho de 1990, o cenário musical perdia Cazuza. E Lucinha Araújo perdia seu único filho para a doença.

A mãe desesperada tinha duas estradas a seguir: trabalhar ou enlouquecer de dor. Lucinha decidiu ir pelo primeiro caminho e fundou a Sociedade Viva Cazuza. Lucinha vai à instituição todos os dias. “É como se eu tivesse 20 filhos”, diz. Conheça, agora, um pouco do trabalho dessa guerreira, que tirou das cinzas a força para ajudar quem hoje passa pelas mesmas dificuldades que seu filho enfrentou há 22 anos.

A Sociedade Viva Cazuza foi criada em 90, logo após a morte do seu filho. De onde você tirou forças?
Não dá para descrever a dor de perder um filho. Mas a Sociedade foi a minha tábua de salvação. Melhor trabalhar do que enlouquecer.

Ainda existe preconceito com os soropositivos nos dias de hoje?
Enquanto houver gente desinformada e sem caráter, vai haver preconceito.

As crianças daqui saem para estudar nas escolas do bairro. No colégio também existe preconceito?
Não mais. Ao contrário! Os amigos do colégio vêm para cá, dormem aqui. Os pais deles permitem, e eu adoro! Mas nós fizemos muitos trabalhos nos colégios explicando como o HIV é transmitido e as pessoas entenderam que só se pega Aids compartilhando agulhas e seringas, nas relações sexuais sem preservativos e no contato de sangue com sangue. Além disso, a minha figura ameaça (risos).

Os médicos são voluntários, mas o restante dos profissionais é contratado. De onde vem o dinheiro para fazer o pagamento dessas pessoas?
Temos uma médica, que é a diretora e funcionária. Os outros profissionais da área médica, como dentista, psicólogos e fisioterapeutas, são voluntários. E temos 24 funcionários em outras atividades, como babás, porteiros, cozinheira, lavadeira… A gente vive dos direitos autorais do Cazuza e de uma verba mensal dada pelo governo municipal. O dinheiro do Cazuza não paga nem 50% do gasto daqui.

Como essas crianças chegam à Sociedade Viva Cazuza?
Elas chegam através do Juizado de Menores. Mas já recebi um monte de crianças no meu portão. A gente trabalha muito com filhos de pessoas que moram nas ruas.

Vocês recebem muitas doações?
O povo brasileiro é muito generoso. Mas a Aids saiu de moda e as doações caíram um pouco. Só existe campanha de prevenção no Carnaval ou no dia 1º de dezembro (Dia Mundial de Prevenção contra a Aids).

Você já perdeu alguma criança?
Em 22 anos de trabalho, tivemos três perdas: dois bebês e uma menina de 16 anos que havia sido criada aqui desde pequena. Ela tinha uma saúde muito delicada. A gente cria, se apega… Impossível não sofrer com a perda.

A medicina evoluiu muito dos anos 90 pra cá. Se Cazuza tivesse contraído o vírus nos dias de hoje, a senhora acha que ele estaria vivo e bem?
Nos anos 90, só existia o AZT. Agora tem 22 tipos diferentes de remédios para formar o coquetel. Nos dias de hoje, ele estaria vivo, sim. Mas fico pensando se o Cazuza resistiria à decrepitude física. Ele era bonito e vaidoso.

As crianças daqui podem ser adotadas por outras famílias?
Podem! Recebi oito bebês este ano e todos foram adotados.



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