O Dia
Diretor de núcleo de ‘Amor à Vida’, Wolf Maya conversou com a coluna sobre os desafios de se fazer uma novela com estética cinematográfica. “Gravamos de 30 a 40 cenas no estúdio.
É como fazer um filme por dia”, conta. No papo, ele fala do vilão Félix — “a gente toca muito nesses personagens para libertá-los e para trazê-los para o conhecimento popular” — e se diverte com as comparações entre o personagem de Mateus Solano e a Carminha de ‘Avenida Brasil’, interpretada por Adriana Esteves. Quando o assunto é beijo gay, o diretor acaba revelando que teme ter que abordar o assunto com crianças diante da TV. “Pode constranger os pais e talvez seja cedo para falar sobre aquele assunto”, argumenta.
As novelas demoram um pouco até cair no gosto popular, mas isso não aconteceu com ‘Amor à Vida’, que já virou uma mania nacional logo na primeira semana. Qual é o segredo do sucesso?
Em primeiro lugar, a história do Walcyr (Carrasco, autor da novela) tem uma empatia imediata. Em segundo lugar, existe uma modernidade na forma de contar essa história. A gente está tentando trazer uma novidade até para as pessoas que dizem que a televisão tem um formato repetido. Então, existe um cuidado com a fotografia, com as locações e com a agilidade na forma de narrar a belíssima história do Walcyr. Todos os personagens dele têm uma trajetória bem surpreendente, para que eles causem surpresas no espectador até o final da novela.
‘Amor à Vida’ tem uma linguagem cinematográfica?
Esse é o nosso grande desafio. A gente faz a novela no tempo de uma produção de televisão. Gravamos de 30 a 40 cenas no estúdio em um único dia. É como fazer um filme por dia. E, por outro lado, damos uma qualidade cinematográfica ao trabalho, porque ninguém aguenta mais assistir à mesma coisa. Então, tem uma linguagem da nossa época, cinematográfica, bem cuidada, aliada a uma agilidade industrial de uma televisão. O que a gente realiza em um dia, uma produção cinematográfica leva de dois a três meses para fazer. Esse é o mérito de toda equipe que faz televisão.
Aquela cena do ônibus incendiado na primeira semana da novela parece que deu muito trabalho, mas quando foi ao ar levou alguns segundos.
O charme está nisso mesmo. Se a gente não fizer nessa agilidade, o espectador não corre atrás. Nossa proposta não é que a novela fique repetindo o que o espectador já viu, mas sim mostrar uma multiplicidade de histórias. Essa cena do incêndio do ônibus foi feita em São Paulo e durou duas noites. Ela teve 40 segundos no ar, mas essa é a realidade da nossa produção. A novela vai atravessar o ano de 2013 e a gente tem a proposta de até janeiro do ano que vem fazer vários movimentos. O Walcyr está surpreendendo muito nesse sentido, porque o formato ágil na forma de contar a história tem tudo a ver com o modo como ele multiplica os olhares sobre os vários personagens da trama.
O Walcyr é um escritor conservador — isso não é uma crítica. A Bíblia é citada em vários momentos da novela, mas a trama não deixa de ser moderna.
Eu acho que essa novela soma a maturidade de todos nós. Sempre fomos à frente do nosso tempo, inventando coisas, criando, sobretudo em minisséries, como ‘Hilda Furacão’ (1998). Acho que ‘Senhora do Destino’ (2004) teve isso, foi o ‘turning point’ do Aguinaldo Silva, o ponto de grande virada. E acho que ‘Amor à Vida’ é esse grande momento para o Walcyr. Ele está vivendo um momento esplendoroso como criador, porque já tem uma grande experiência no assunto.
Quando foi o seu ‘turning point’, a sua grande virada, a que mudou o rumo da sua história?
Acho que foi em projetos com a Gloria Perez. A primeira foi o seriado ‘Desejo’ (1990), com a Vera Fischer, e a novela ‘Barriga de Aluguel’ (1990), que foi quando comecei a ganhar autoria como diretor. A partir daí, consegui entender o processo. Meu encontro com Carlos Lombardi, por exemplo, foi espetacular, como ‘O Quinto dos Infernos’ (2002), ‘Uga-Uga’ (2000) e ‘Kubanacan’ (2003). E, depois, com o Aguinaldo, que começou com ‘Senhora do Destino’, ‘Lara com Z’ (2011) e ‘Cinquentinha’ (2009), para selarmos essa parceria. Agora, eu encontro Walcyr num momento muito importante da vida dele. Eu, Walcyr e Mauro (Mendonça Filho, diretor-geral de ‘Amor à Vida’) somos uma trinca. Eu sou o conceituador, faço esse diálogo com o Walcyr.
Você já disse que gosta de atuar nas suas novelas. Existe essa possibilidade em ‘Amor à Vida’?
Não vai dar tempo. Tenho três projetos grandes: estou montando a escola de atores (Wolf Maya, na Avenida das Américas, 2.000, ao lado do Freeway, na Barra) e um teatro bem ali ao lado, que vai se chamar Teatro Nathalia Timberg. Ela é madrinha da minha filha mais velha (a atriz Maria Maya) e é como se fosse minha mãe. O teatro fica pronto até o final do ano e a Nathalia estreia nele no início do ano que vem. Além disso, dirijo a novela às segundas e terças, quando o estúdio (no Projac) é meu. Dirijo todas as cenas do (Antonio) Fagundes e do Félix (Mateus Solano).
As pessoas comparam muito o Félix com a Carminha (vilã de ‘Avenida Brasil’, interpretada por Adriana Esteves). O que você acha da comparação?
(risos) Eu acho adorável, porque a Carminha é um espetáculo! Apesar de eles serem bem diferentes, os dois podem chegar a qualquer situação, porque eles não têm limites. Esses personagens são um prêmio na vida de um ator e a Drica fez isso lindamente, assim como o Mateus está fazendo.
Quando o Walcyr pensou num vilão gay, enrustido, vocês previam toda essa polêmica?
Mais ou menos. Algumas coisas foram sendo ajustadas. Eu lutei muito para que ele tivesse uma vida conjugal realizada. Esse foi meu ponto de discussão com o Walcyr, porque eu achava que Félix e a mulher deveriam ter uma história de amor, mesmo ele sendo gay ou bi e fazendo essas loucuras. A complexidade do personagem está justamente nesse somatório de coisas que ele tem. E só Deus sabe como surge essa mulher na vida dele. É isso o que o espectador fica tentando entender. Nesse ponto, o Félix é moderno. Já fiz na minha vida três personagens de comportamento gay. O primeiro foi o Lulu (Eri Johnson), em ‘Barriga de Aluguel’, exatamente nos anos 90. Era o gay cabeleireiro, engraçado, inspirado, precursor de um comportamento, uma loucura. Vinte anos depois, fizemos o Crô (Marcelo Serrado), de ‘Fina Estampa’ (2011), como o gay que importava a cultura lá de fora, aquela gravatinha borboleta. Aquele jeito do Marcelo Serrado foi muito inspirado em ícones que a gente conhecia. O Félix já é o gay contemporâneo, que está no meio de uma sociedade, principalmente paulista, que é quase careta. Cada um desses três personagens faz um retrato muito claro de suas épocas e desses comportamentos excepcionais na sociedade.
Tem muito Félix por aí?
Tem muito Félix por aí, sim, principalmente em São Paulo. E a gente toca muito nesses personagens para justamente ampliá-los, libertá-los e trazê-los para o conhecimento popular. Só assim a gente consegue contar a história nossa época. A lavadeira em Rondônia vai entender do jeito dela, o cara da classe alta em São Paulo também, porque o personagem é contemporâneo. Cuido do Félix para que ele também tenha o tempo do humor, como o Lulu e o Crô tinham.
Na festa de estreia de ‘Amor à Vida’, em São Paulo, o Walcyr falou para os jornalistas: “Não me venham perguntar sobre beijo gay!”
Já foi o tempo em que a gente precisava expor fisicamente para provocar, sacudir e fazer falar. Hoje em dia, o resultado do que esses personagens provocam é muito maior que essa polêmica. Não sou careta, mas fica complicado exercer um controle dentro de casa entre a televisão e a criança. Criei filhos e sei como é o processo, mesmo eles sendo filhos de artistas que conviveram num meio de mais liberdade. A criança assiste a uma novela das nove, das dez e vê coisas que ficam longe do entendimento dela, ela pode constranger os pais e talvez seja cedo para falar sobre aquele assunto. Não que não se deva falar, mas cada um tem sua família e sabe o momento correto para isso ser conduzido. É delicado eu expor o beijo gay ou uma violência física agressiva, um assassinato agressivo. Tenho muito cuidado com esse enorme público que assiste à televisão que fazemos no Brasil. Vale muito mais a pena pensar no todo do que particularmente na sua vontade ou no seu ponto de vista ao fazer um ato violento ou um ato erótico.
As pessoas falam muito das festas na sua casa. Por que essas festas são tão famosas?
Minha família é muito festeira. Eu sou de Goiás. Lá, a gente toca, dança, canta… Tenho isso como estrutura familiar. Os ensaios de musicais são na minha casa, enfim. Tive duas filhas (Maria e Manuela) e criei os filhos das minhas ex-mulheres como se fossem meus filhos — o filho da Cininha (de Paula, diretora e mãe de Maria) e o Gabriel, outro filho meu que mora em Goiás. Acho que a Manu, que conseguiu não ser atriz numa família de atores, é uma grande produtora, organizadora e ajuda muito nas festas. Quando descobri que ela era uma grande anfitriã, as festas se ampliaram. Mas nunca fiz isso comercialmente. A Manu é que um dia vai fazer, talvez quando herdar a minha casa do Joá e transformar aquilo num centro de convivência, com restaurante, festas. Ela estudou nos Estados Unidos, chegou de Cannes essa semana, porque estava na organização do festival. Mas as festas mais divertidas são as juninas, que a gente faz lá na nossa fazenda, em Goiás. A gente mata um boi, faz quentão, é muito bom.
O que o público pode esperar de ‘Amor à Vida’ a partir de agora?
Emoção. Vai ser uma novela inesquecível. É meu primeiro grande encontro com Walcyr e Mauro juntos. A história é muuuuuito boa e Walcyr merece todo o aplauso do mundo. A gente nunca se desentende em relação a nada. E o espectador ganha, porque o elenco é espetacular, tem todo mundo que a gente escolheu. Os instrumentos da nossa obra — que são os atores — são muito bons. Já fiz alguns sucessos na minha vida e eles nunca são decorrentes de uma só pessoa, de uma só uma ideia. São muitas pegadas de muitas pessoas para que tudo dê certo.









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