O Dia
Paulo Gustavo começou engatinhando no teatro. Em sua primeira produção, o cenário foi comprado com cheques pré-datados. Hoje, ele vive o sucesso e aguarda a estreia do filme ‘Minha Mãe é uma Peça’, baseado no espetáculo que levou às gargalhadas quase um milhão de pessoas em todo o Brasil.
No palco, Paulo Gustavo vive a simpática aposentada Dona Hermínia, que foi trocada pelo marido por uma mulher mais jovem e agora passa o tempo contando as agruras de sua vida com muito bom humor. Quem for assistir ao longa, que chega às telonas na próxima sexta-feira, vai conhecer a verdadeira Dona Hermínia, que na realidade se chama Dona Déia e serviu de inspiração para o ator. Ela, que já foi buscar o filho na boate vestindo uma camisola, faz uma pequena participação na produção. Apesar da peça e do filme não serem biográficos, Paulo revela que o gênio forte e também o grande coração da mãe foram ingredientes essenciais para a construção de Dona Hermínia. Além do filme, Paulo reestreia o espetáculo ‘Hiperativo’ no Teatro Oi Casagrande, no Leblon, em julho. E ainda tem o ‘220V’, programa de humor que ele protagoniza no Multishow e está na quarta temporada. Inquieto, ele diz o que o faz perder a paciência: “Me irrito com gente lerda. Peço para a pessoa fazer uma ligação, ela liga dois dias depois porque estava ‘esperando o melhor momento’”, lembra o ator. Convites para se aventurar na TV aberta não lhe faltam. Mas aí o dia desse hiperativo teria que ter 48 horas.
Como surgiu a ideia do espetáculo ‘Minha Mãe é uma Peça’? A sua mãe, Dona Déia, é assim?
Minha mãe é divertida, carismática. Tudo o que ela quer falar, ela bota pra fora. É explosiva, geniosa, mas é também muito carinhosa. A personagem da Dona Hermínia é totalmente inspirada nela.
O filme (homônimo, que estreia no cinema na próxima sexta-feira) e a peça são biográficos?
Não são sobre a minha vida… Até porque minha irmã não quer ser atriz, como acontece na peça, meu pai não é milionário e a minha madrasta não é mais jovem. Muita coisa é ficção. A semelhança está no tipo de personagem e nas situações.
Que situações?
Na história, a mãe vai buscar os filhos, Marcelina e o Juliano, na boate. Minha mãe já fez isso comigo, acho que eu tinha 18 anos.
E foi um mico?
Mico total! E, para piorar, ela vai com roupa de casa, camisola. Aliás, uma amiga passou por uma situação parecida. O pai foi buscá-la vestindo um blazer, mas, quando abriu a porta do carro, estava de cueca samba-canção.
Como foi para colocar a peça em cartaz pela primeira vez?
Tive todas as dificuldades financeiras do mundo. Eu era muito duro. Sou de uma família que não tem grana, meus pais não são ricos. Lembro que paguei o cenário com cheque e parcelei em cinco vezes. Meu pai, minha madrasta e minha mãe me ajudaram e fiz uma vaquinha na família. O pessoal da peça trabalhou de graça e foi recebendo o dinheiro da bilheteria ao longo do ano. Combinei isso com todo mundo.
Mas você tinha certeza de que a peça daria certo e você conseguiria pagar os envolvidos?
Eu não tinha certeza, mas era um falso escudo para todo mundo, entendeu? Eles também sabiam que estavam num projeto que poderia dar errado, por isso todos eles são meus amigos e eu nunca vou esquecer disso. Era uma aposta de todo mundo. Eu não sabia que ia ser esse sucesso todo, mas sabia também que não ia dar errado. Testei antes. Conforme eu escrevia o texto, eu lia para os amigos e eles morriam de rir.
Sua mãe, sua empregada e seus amigos são o seu termômetro?
Sim, sempre mostro para eles e faço questão de ouvir a opinião verdadeira.
É verdade que seu pai vendeu o carro para te ajudar?
Ele se ofereceu para vender quando comecei o ‘Minha Mãe é uma Peça’, mas eu disse a ele que não precisava.
Seus pais sempre acreditaram em você?
Sempre tive o apoio deles para fazer teatro.
Você se acha melhor caracterizado como mulher do que como homem?
Acho que os dois são ótimos. Tenho facilidade para fazer mulher, sim.
Você foi criado com muitas mulheres?
Fui. Minha irmã, minha mãe, três tias, muitas primas e poucos primos. As mulheres da minha família são muito fortes, autênticas. Isso acabou contribuindo para que eu pudesse usar essas personagens que sempre estiveram tão próximas.
Você tem um humor requintado e, ao mesmo tempo, popular. Como você se define?
Acho que meu humor é popular, mas tenta sempre dizer algo, não ser vazio. Humor é uma forma maravilhosa de dizer as coisas, fazer crítica com leveza. Tento fazer algo com uma mensagem, mas que não fique uma coisa muito culta e que ninguém entenda p… nenhuma.
O seu humor é ranzinza?
Eu tenho um pouco esse personagem do mal-humorado, mas não sou assim na vida.
Não?
Não. Nunca tive mau humor. Estou sempre alegre. Na verdade, tenho até dificuldade de falar sem fazer palhaçada.
É verdade que você tem medo de espíritos?
Eu tenho. Você não tem, não, gente? Você fala com os espíritos?
Mas você já viu um?
Nunca vi, mas já senti. Você sente quando está com os olhos fechados e alguém chega perto. Eu acredito nisso.
Você evita ficar em casa sozinho ou não tem problema com isso?
Não tenho problema, não. Só não gosto de dormir com tudo apagado. Sempre ligo a TV ou durmo com o abajur ligado para relaxar.
Por que você não foi para o ‘Zorra Total’? Já te chamaram várias vezes, né?
Já me chamaram várias vezes, mas nunca fui porque não dá tempo. Sempre estou fazendo algo.
E novela?
Me convidaram para fazer participação, mas estou sempre enrolado. Já fui muito noveleiro, a novela é muito forte na nossa cultura e eu queria fazer parte disso também.
A gente vê um novo caminho para os humoristas nas novelas. Heloísa Périssé, Fabiana Karla, Ingrid Guimarães… Esse é um caminho para você?
Acho que não. Não tenho vontade de seguir uma carreira só de novelas. Eu sentiria falta do teatro, da comédia, do seriado. Não me daria bem fazendo só novela, não é a minha praia.
Quando você se deu conta do sucesso de ‘Minha Mãe é uma Peça’ no teatro?
Quando fui comemorar os três anos em cartaz, fizemos duas sessões lotadas no Citibank Hall, na Barra. Aí, percebi que consegui chegar lá sem fazer televisão aberta nem nada. Mas a carreira do ator é muito instável. Às vezes, tem chuva, tem gripe suína (risos). Não dá para acreditar que o sucesso é um caminho sem volta, porque isso não é legal. Gosto de batalhar minha grana e, mais ainda, de trabalhar. Sou hiperativo, não consigo tirar férias. Com 20 dias sem fazer nada, eu já fico enlouquecido.
E o que você faz nas férias? Desliga tudo?
Desligo nada! Fico no Facebook, no Twitter, no Instagram, viajo, falo um monte de merda, conheço gente, bebo, vou pra boate, faço tudo errado!
E essa hiperatividade já causou algum problema?
Me irrito com gente lerda. Peço para a pessoa fazer uma ligação, ela liga dois dias depois porque estava “esperando o melhor momento”. Eu digo: “O melhor momento é o agora!”. Esse negócio de dar tempo ao tempo me irrita!
Qual é a parte boa e a parte ruim do sucesso?
A parte ruim é a ansiedade, a estreia, a entrevista, a vontade de saber o que o público vai achar e o palco. Tudo isso cansa fisicamente e mentalmente. Aí, você acaba tendo que pegar pesado e cuidar muito da saúde para não ficar doente. A parte boa é as pessoas curtirem o espetáculo, a crítica boa, conhecer as pessoas, estar com gente legal, fazer amizade. Sou agitado pra c…, quando viajo pelo Brasil, fico com vontade de descer do palco para conhecer as pessoas.
De quem você é fã no mundo do humor?
Samantha Schmütz, Tatá Werneck, Marcos Veras, Marcelo Adnet, Bruno Mazzeo, Fábio Porchat e vários outros.
Como você lida com os fãs?
Falo com todo mundo. Quem é ótimo é ótimo. Quando tem alguém dessituado, eu situo logo! Mas sou caloroso e carinhoso também. Consegui muita coisa na vida por causa do público e é ele a coisa mais importante na nossa carreira. Sem dúvidas.
Quando você vai se render à TV aberta?
Falta tempo. Propostas eu tive. Fui convidado para o ‘Dentista Mascarado’, ‘Tapas e Beijos’, um programa da Regina Casé… Quero fazer todos, mas preciso de tempo, porque o Multishow me consome muito.
Você parece uma pessoa leal…
Sou, sim, com os meus amigos e com o Multishow, que me abriu as portas e me deu o status que ninguém me deu. Para mim, eu sou contratado de lá para sempre.










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