Ascom | CDL
A humanidade sempre encontrou uma forma de negociar para suprir suas necessidades. Desde a época do escambo, com a troca de mercadorias, depois com a descoberta do metal e o surgimento da moeda. Comprar e vender bens e serviços são uma marca forte da cultura ocidental. O dinheiro, com o advento da cédula, estabeleceu novos valores ao comércio, dinamizando o lucro. Contudo, ao ser utilizado de forma inadequada, é fonte de graves problemas e conflitos sociais. Para ajudar nessa discussão, esta edição do informe CDL discute a importância do uso consciente do dinheiro e a importância do planejamento financeiro para evitar problemas relativos ao endividamento e comprometimento da renda. Para falar mais sobre o tema, conversamos com o professor do Curso de Economia da UESB, Marco Antônio Longuinhos (foto). Confira:
Informe CDL – Como fazer bom uso dos recursos disponíveis?
Profº. Longuinhos – O ideal seria que esse assunto fosse ensinado na escola desde a infância. Em alguns países como a França, ensinam a usar o dinheiro no equivalente ao nosso primário. Lá, desde cedo, as crianças entendem e discutem o valor dos recursos e aprendem a elaborar um planejamento financeiro para sua vida, o que no Brasil ainda não temos. Em verdade, nos países avançados o estudo da Economia geralmente acontece desde muito cedo na vida das crianças, vinculado ao ambiente escolar. Se nesse momento pensarmos em nossa realidade, percebemos que as pessoas têm uma memória inflacionária muito forte, fazendo com que o planejamento seja limitado. Mas, ainda associo esta condição à falta de educação formal sobre economia que acolhe parte importante da sociedade brasileira, mesmo diariamente tendo as pessoas que realizar nas suas vidas várias escolhas que envolvem consumo, produção e investimento. Há falta de informação muito ampla e, se pensarmos também nos indicadores sociais, em termos de educação, isso explica o problema que nós temos. Vamos associar isso também ao fato de que o Brasil é um país que tem uma das maiores taxas de juros do mundo. As pessoas precisam perceber que há necessidade de aprenderem a planejar seu orçamento financeiro doméstico e avaliar a maneira que fazem suas aquisições de bens e serviços e cumprir uma regra de poupar, todo mês, de 10% a 20% do que ganham. Isso vai possibilitar que, em caso de uma necessidade futura, tenham recursos sobrando para atender essa demanda, evitando usar recursos de agentes financeiros, pois são bastante onerosos, e mais ainda, ampliar o seu patrimônio pessoal.
Informe CDL – A questão é realmente pedagógica?
Profº. Longuinhos – Permita-me salientar que a questão perpassa fortemente pela educação, mas também, está vinculada a forma com que a sociedade se organizou, e nesta, o papel das Instituições. Uma população que não sabe usar bem o dinheiro tende a se endividar. Uma população endividada gera problemas no fluxo do consumo. O consumo não se expande como deveria porque tem um conjunto de pessoas com um alto endividamento. O usa adequado do crédito tem uma grande importância na economia. Por isso, seria ideal que essas questões fossem discutidas na escola e que os alunos fossem estimulados a pensar no valor do dinheiro, o que ele representa na economia, como fazer escolhas e como usar corretamente os recursos. Pouquíssimas escolas fazem isso, mas essa discussão fica restrita e não são naquelas em que a grande maioria das pessoas está. Percebas que quando indico o importante papel que a escola possui na formação humana, que é inegável, também assento a importante ação das políticas públicas para as transformações da sociedade.
Informe CDL – E os jovens? Como eles lidam com o dinheiro?
Profº. Longuinhos – Os jovens precisam saber lidar com o dinheiro, pois eles serão adultos no futuro. Eles precisam entender, desde cedo, dos mecanismos que envolvem das decisões de comprar, vender, investir. Se não compreenderem alguns fundamentos, comprometerão sua mesada ou salário e isso tem um custo caro na vida. Além disso, tem o fenômeno do crédito. No Brasil recentemente, o crédito se ampliou a partir da possibilidade de controle inflacionário com o Plano Real. Com a ampliação e difusão do crédito, as instituições financeiras também têm focado os jovens porque serão os consumidores do futuro. Como são jovens que, de certa forma, não têm essa formação do uso consciente do dinheiro, a tendência é fazer dívida para consumo, o que não é adequado. O desejável é fazer uso do crédito para investimento.
Informe CDL – Como poupar e para quê?
Profº. Longuinhos – O ato de poupar tem que ter um objetivo claro. É o que chamamos de investimento. As metas devem ser definidas, como por exemplo: poupar para fazer uma viagem, fazer uma reforma, comprar livros, fazer um curso, comparar uma casa, etc. Se a pessoa planejar, ela vai construir um hábito saudável de usar o dinheiro e atingir seus objetivos.
Informe CDL – Como se livrar do endividamento e evitar os empréstimos?
Profº. Longuinhos – Planejando o orçamento. Buscar guardar de 10 % a 20% dos recursos mensais e aplicá-lo na poupança ou qualquer outro ativo financeiro que possa rende juros ou ganhos, dependendo do nível de conhecimento do ativo e mercado em que atuam as pessoas e da capacidade de assumir riscos. Se a pessoa não costuma poupar e vai em busca de ajuda de agentes financeiros para suprir suas necessidades imediatas via crédito, irá pagar uma taxa de juros muito elevada. Normalmente tem o Brasil elevada taxa de juros porque é deficiente em capital. Assim também devemos esboçar maior poupança para também colaborar na ampliação do capital possibilitando reduções na taxa de juros.
Geralmente o uso por consumo pode levar a situações que podem comprometer a sobrevivência de uma pessoa. Por exemplo: se ela for em busca de recursos para o consumo, poderá pagar uma taxa mensal de 12%, que facilmente chegará a 130% ano, considerando o sistema de amortização utilizado e as taxas que serão vinculadas. Assim, haverá ampliação da dívida em mais que o dobro, em apenas um ano.
Informe CDL – Os aposentados costumam ser alvo dos agentes financeiros por terem renda fixa e pelas garantias do crédito consignado. Contudo, muitos deles acabam comprometendo mais de 30% do seu orçamento, ficando endividados. Como fugir dessa realidade?
Profº. Longuinhos – Realmente isso infelizmente acontece e ocorre pela seguinte questão: como essas pessoas têm benefício contínuo, elas oferecem menor risco de crédito. Não estão associadas ao mercado de trabalho diretamente, mas nas regiões mais pobres do país os aposentados, conforme atentam várias pesquisas, têm participado amplamente da renda familiar. O valor que deveria ser utilizado para garantir uma vida adequada a eles, vai também ser utilizado para sanar necessidades dos parentes.
Informe CDL – Por que ultrapassa o limite de 30% do orçamento?
Profº. Longuinhos – Por ausência de controle das pessoas que buscam empréstimos e por ausência também dos controles, ou melhor, fragilidade dos controles, das instituições que fomentam este tipo de operação. Mesmo possuindo condições de perceberem adequadamente o montante de endividamento já atingindo pela pessoa.
Informe CDL – Qual a melhor maneira de comprar?
Profº. Longuinhos – O ideal seria a pessoa comprar a vista porque ela pode negociar. Quais são as vantagens? Não é somente evitar se endividar, mas ter condições de barganhar. Ela pode conseguir melhores descontos. A compra ou serviço sai com valor menor do que se fosse financiado.
Informe CDL – As pessoas já começam a pensar no próximo ano, sobretudo nos 04 primeiros meses, quando normalmente há muitas despesas. Como se planejar para não ficar no vermelho?
Profº. Longuinhos – Com planejamento, como já foi colocado. Caso a pessoa não tenha recursos disponíveis para saldar suas despesas, como no caso da matrícula escolar, impostos, material escolar, etc., ela deve buscar a negociação por meio do parcelamento. Claro que vai haver juros, mas como a pessoa não poupou ao longo do ano e não se planejou, a alternativa é mesmo o parcelamento.
Informe CDL – Como fazer esse planejamento?
Profº. Longuinhos – A pessoa deve procurar canais específicos para auxiliá-la, como uma associação de consumidores. Aqui em Conquista, por exemplo, temos a Associação das Donas de Casa que poderia oferecer esse suporte e também a própria universidade, através do curso de Economia. Caso haja uma demanda, os alunos do curso poderiam ajudar a pessoa a compreender a dinâmica de consumo e investimento.
Informe CDL – Isso seria uma proposta?
Profº. Longuinhos – Sim. Poderíamos, a depender da demanda, realizar um curso de economia doméstica para auxiliar as pessoas. Aliás, já existe um projeto piloto na universidade, mas por enquanto para atender os funcionários da instituição. É um curso de 20 horas aula que depois poderíamos abrir para a participação da comunidade. Estamos finalizando este piloto e creio que seja possível muito em breve oferecê-lo à sociedade.









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