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Decisão ‘corporativa’ do DEM pode ter comprometido campanha de José Serra

do Estadão

Rodrigo Maia e seu pai, César Maia, procuraram um nome do confiança dentro do quintal carioca, emplacando um nome conhecido no Rio, mas sem nenhuma repercussão nacional, em uma convenção democrata marcada pelo improviso e pela desorientação.

Fontes indicam que José Serra foi 'convencido' a aceitar o vice democrata, senão quisesse perder o tempo na TV

Os mestres da política ensinaram que não se exerce o ofício com o fígado, mas com inteligência e estratégia. Tudo o que faltou ao PSDB nesse contexto de escolha do vice de José Serra. A começar pela tentativa de os tucanos armarem um casamento de conveniência, no qual a noiva não aparece em público, não priva da intimidade do parceiro, mas entra com o patrimônio – no caso, eleitoral.

A definição que poderia ter saído antes, de forma discutida e estratégica, surge tardiamente, com a marca do improviso e com um só efeito palpável, pelo menos por ora, que é o de sacramentar a aliança com o DEM.

Não saiu antes por duas razões: a divisão interna do DEM, que jamais propusera um candidato a vice, e a rejeição do PSDB ao parceiro. Desde a saída de cena do ex-senador Jorge Bornhausen, em favor de uma estratégia de rejuvenescimento do partido, o DEM não encontrou mais unidade.

Ungido presidente da legenda, o deputado Rodrigo Maia (RJ), filho do ex-prefeito do Rio, César Maia, é porta-voz de apenas uma ala do partido e não obteve consenso em torno de um nome para levar ao PSDB. Além disso, desenvolveu uma aversão – que é recíproca – com José Serra, inviabilizando uma interlocução do partido com o candidato. Por sua vez, José Serra – para quem o vocábulo “direita” é o mais feio do dicionário político – agiu como quem encontrou numa relação indireta com o DEM, exercida através de interlocutores comuns, uma zona de conforto com a qual se satisfez.

Foi nesse contexto que um grupo do PSDB emplacou uma chapa puro-sangue que contraria a lógica das alianças, que é a de somar forças. Assim, impôs ao DEM, no vácuo de poder que se instalou na campanha, um nome anunciado no Twitter pelo presidente do PTB, Roberto Jefferson. A despeito do envolvimento de Jefferson no mensalão do PT, o PSDB abrigou o petebista na aliança sem o constrangimento que demonstrou ter com o DEM.

A crise aberta com a indicação do senador Álvaro Dias (PR) despertou no PSDB o instinto de sobrevivência que superou a notória submissão do partido, e de seu candidato, ao patrulhamento ideológico que o PT – que desfila escancaradamente com Sarney, Renan, Collor e outros – cobra aos demais, mas não aplica a si próprio. Jovem, Índio da Costa não teve tempo de construir uma biografia política. Tem no seu currículo o mérito recente da relatoria vitoriosa do projeto da Ficha Limpa, que já diz algo positivo sobre ele. Mas é duvidosa a afirmação de que possa agregar votos a Serra fora do Rio, sua base eleitoral.

Muita coisa tem de ser arrumada ainda na estratégia do PSDB, mas o fim da novela do vice deixou claro que o candidato precisa assumir o comando da sua campanha e o passado positivo de seu partido, que construiu a estabilidade da economia. Já há quem esteja convencido de que Lula disse o que não queria ao anunciar uma disputa comparativa de seu governo com o do PSDB.

Ao aceitar a provocação, os tucanos excluíram de sua campanha o que têm de melhor – a paternidade dos fundamentos econômicos, mantidos pelo governo do PT, e, por extensão, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, de cujo poder debatedor Lula está poupado. Renegar feitos, ou admiti-los constrangidamente, é uma escolha equivocada que pode fazer de Serra “o melhor presidente que o Brasil jamais teve”, como brincou a revista britânica The Economist.



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