G1
Rendimento dos títulos italianos supera 7%. Juro indica desconfiança dos investidores em relação à Itália. Na véspera, premiê Berlusconi disse que irá renunciar.
O rendimento dos títulos públicos italianos, que representa o juro com que o governo remunera os investidores que compraram papéis da dívida do país, superava na manhã desta quarta-feira (9) os 7%, um novo recorde histórico desde a criação do euro e que é considerado insustentável, apesar do anúncio da renúncia em breve do chefe de governo, Silvio Berlusconi, que era desejada pelos mercados.
No mercado de ações, o dia também é de incerteza: as bolsas europeias operam em queda. Nos últimos dias, a possibilidade de Berlusconi renunciar havia dado confiança ao mercado de ações italiano, que operou em alta e ao mesmo tempo aliviado pela pressão sobre o prêmio de risco.
O prêmio de risco italiano, pedido pelos operadores que vendem esses títulos, é medido a partir do diferencial entre o bônus nacional para dez anos e o alemão de mesmo prazo. Indica que os investidores exigem um rendimento maior para emprestar dinheiro à Itália.
Na semana passada, o Banco da Itália informou que tem condições de enfrentar uma dívida pública com juros de até 8% durante os próximos dois anos e com a economia estagnada. A Itália, embora solvente, está bem endividada. O receio dos investidores é de que o país não tenha capacidade de sustentar esse nível de empréstimos a um custo mais alto. E, como é a oitava maior economia do mundo, um colapso seria sentido em toda a economia global.
Na véspera, o rendimento havia atingido 6,77%. “Berlusconi conseguiu postergar sua permanência no cargo, mas as dúvidas persistem sobre a aplicação da política de austeridade”, explicou Laurent Geronimi, da Swiss Life Gestão Privada. “A política de Berlusconi tem sido atacada desde que ele assumiu o cargo e esses ataques aumentara agora com o agravamento dos desafios”, disse Geronimi.
Efeito Berlusconi
Na véspera, o premiê da Itália, Silvio Berlusconi, confirmou que vai entregar o cargo após o Parlamento aprovar as leis orçamentárias para 2012. Ele confirmou o que já havia sido anunciado pelo presidente Giorgio Napolitano em comunicado. “Após a aprovação dessa lei financeira, que tem emendas para tudo que a Europa nos pediu e que o Eurogrupo solicitou, eu vou renunciar, para permitir o chefe de Estado a abrir consultas”, disse em entrevista a seu canal 5 de televisão. “O Parlamento hoje está paralisado, no que diz respeito à Câmara dos Deputados”, disse.
“No Senado, a centro-direita (o governo) ainda tem uma boa maioria. Mas, com a saída de sete membros da maioria hoje, o governo não tem a maioria que pensávamos que tivesse, e então temos de enfrentar a situação com realismo.” Ele afirmou que a Itália está em uma “posição difícil” em relação aos mercados financeiros e tem de demonstrar que é capaz de reformas sérias. Ele acrescentou que a única opção realista é a de novas eleições. O anúncio ocorreu horas depois de o contestado premiê de centro-direita ter perdido a maioria absoluta na Câmara dos Deputados, o que fez a oposição intensificar os pedidos pela sua saída, que já eram crescentes. A decisão foi anunciada após encontro entre o premiê e o presidente Napolitano.
Entenda a crise italiana
Enquanto a Alemanha continuar prisioneira do dogma absurdo que proíbe o BCE de emprestar dinheiro aos Estados, a crise vai continuar. Para além do psico-drama grego, esta crise está centrada na Itália. Por Arnaud Parienty.Artigo |9 Novembro, 2011 – 02:33“A Itália digna que se indigna” – Foto de eleven1967/flickr
Uma vez dissipada a cortina de fumo mediática, toda a gente percebe que não houve acordo na “cimeira” europeia de 26 de Outubro: Ninguém sabe como será alimentado o FEEF (Fundo Europeu de Estabilização Financeira), nem quais serão as suas missões. Ora, enquanto a Alemanha continuar prisioneira do dogma absurdo que proíbe o BCE (Banco Central Europeu) de emprestar dinheiro aos Estados, a crise vai continuar. Para além do psico-drama grego, esta crise está centrada na Itália.
O objectivo essencial da “cimeira” europeia era criar um mecanismo de empréstimo à Itália, de forma a limitar a especulação sobre a dívida italiana. A “cimeira” falhou dramaticamente. Por isso, agora é sobre a Itália que a crise se vai desenvolver, durante bastante tempo sem dúvida. Esta situação pode parecer surpreendente, na medida em que a Itália tem finanças públicas quase equilibradas e está longe da situação de especulação que desequilibrou os bancos de outros países. Contudo, a situação deste país é preocupante. Ela ilustra perfeitamente o actual impasse europeu.
A armadilha da dívida
Suponhamos um Estado em equilíbrio, que para pagar aos funcionários, os apoios sociais e os investimentos públicos não gasta mais do que cobra em impostos. O saldo primário do orçamento, isto é, sem o pagamento do serviço da dívida, é nulo. Mas apesar disso a sua situação é deficitária, devido ao serviço da dívida (pagamento dos juros e reembolso de uma parte do capital). Este défice vai aumentar a dívida. Mas a taxa de endividamento (dívida/PIB) depende também do denominador: se o PIB aumentar mais do que a dívida, a taxa de endividamento diminui.
Como primeiro passo do raciocínio, a evolução da dívida em relação ao PIB depende de quatro elementos. O primeiro é o próprio nível da dívida, em relação ao PIB. Como sabe qualquer pessoa que tenha comprado a sua habitação a crédito, existe um limite ao montante que pode ser consagrado em cada ano ao reembolso da dívida. Quando a dívida é muito elevada, esse montante serve principalmente para pagar os juros da dívida, de forma que o montante da dívida não diminui. Suponhamos que um país possa consagrar no máximo 5% do seu rendimento (o PIB) ao seu reembolso, sendo este máximo determinado pelo montante que os credores estão dispostos a emprestar em cada ano. Se a dívida representa 40% do PIB e a taxa de juro é de 3%, o pagamento de juros absorve 1,2% do PIB e é possível reduzir o endividamento em 3,8 pontos do PIB por ano. Pelo contrário, se a dívida atingiu 120% do PIB, o pagamento de juros absorve 3,6% do PIB e a dívida só pode ser reduzida 1,4 pontos do PIB por ano.
O segundo elemento é a taxa média de juro da dívida: quanto mais elevada for essa taxa, maior será o peso da dívida. No caso da Itália, se a taxa de juro for a que o Reino Unido paga, 2%, para uma dívida que representa 120% do PIB, os juros representam 2,4% do PIB a pagar em cada ano. Se a taxa de juro for a que a Itália paga actualmente, 6,4% nos empréstimos a 10 anos, os juros representam 7,68% do PIB! Se esse nível for possível, levará a um rápido crescimento da dívida. Se esse nível for impossível, porque o país está comprometido com os seus parceiros a não ultrapassar o défice de 3% ou porque o país não encontra empréstimos para financiar esse défice, o país deve reduzir a despesa pública e aumentar os impostos, com risco de travar o crescimento.
O crescimento, precisamente, é o terceiro elemento. Ele funciona em sentido positivo, reduzindo a taxa de endividamento. De facto, imaginemos uma dívida de 1,8 biliões (milhões de milhões) para um PIB de 1,5 biliões. O endividamento é de 120%. Se o crescimento for de 3%, durante um ano, o PIB será de 1,545 biliões, mantendo-se a dívida, de forma que a taxa de endividamento baixou 3,5 pontos, baixando para 116,5%.
Um quarto elemento funciona no mesmo sentido: a subida dos preços, que aumenta o PIB sem aumentar a dívida (se ela for subscrita a taxa fixa, o que é normalmente o caso).
Em resumo, na ausência de défice primário, a dívida evolui em função do seu montante inicial, da taxa de juro, da taxa de crescimento da economia e da subida dos preços. Mas estes quatro elementos não são independentes uns dos outros. Eis o segundo passo do raciocínio. A interacção mais evidente é que um excedente orçamental permite reduzir o montante da dívida, mas reduz ao mesmo tempo o crescimento, de forma que é precisa muita austeridade para conseguir uma pequena baixa da dívida. A subida do endividamento aumenta os riscos de falência, e como tal a taxa de juro pedida pelos credores… e por conseguinte a dívida. A inflação aumenta o PIB, mas também a taxa de juro. Estas interacções complicam a busca de uma solução.
A equação italiana
A Itália tem dois problemas: uma dívida elevada e um crescimento quase nulo desde há quinze anos. Esta ausência de crescimento faz com que, apesar de uma gestão muito prudente das finanças públicas, a taxa de endividamento aumente. A Itália está pois ameaçada pelo efeito “bola de neve” da dívida: ela aumenta por si só e fica completamente fora de controle.
Esta situação é evidentemente inquietante. Apresenta-se assim atualmente:
- Dívida / PIB – 120%
- Taxa de juro – 6,4%
- Taxa de crescimento – 0,5%
- Subida dos preços – 2,7%
Enquanto que os economistas calculam que a taxa de juro, a longo prazo, deveria ser igual à taxa de crescimento mais a subida dos preços, constata-se que há actualmente uma enorme diferença entre as duas: 6,4% – 0,5% – 2,7% = 3,2%. A taxa de endividamento aumenta portanto mecanicamente 3,2% x 120% = 3,8% por ano, aproximadamente.
Certamente, a solução preconizada pela Alemanha, e portanto pela Europa, que consiste em acentuar a austeridade, não terá mais sucesso na Itália do que na Grécia ou em Portugal. Como é que a Itália pode sair desta situação? É possível agir em três questões.
Um mecanismo claro que elimine todo o risco de falência sobre a dívida italiana chegaria para que as taxas de juro baixassem 2% ou 3%, o que seria suficiente para estabilizar a dívida. O mais simples seria evidentemente que o BCE declarasse que compra dívida italiana em certas circunstâncias (por exemplo, se as taxas ultrapassarem um determinado valor, pois o nível das taxas de juro faz parte dos objectivos intermédios do BCE). Mas será necessário muito suor, sangue e lágrimas (e uma mudança de governo) para que a Alemanha aceite um tal sacrilégio.
Na sua ausência, resta o FEEF, Mas quem vai aprovisioná-lo? Certamente não será a França, que tem um endividamento preocupante. E os emergentes fizeram saber claramente, sob a influência do Brasil, que só financiarão a Europa através do FMI, meio para eles aumentarem os seus direitos de voto naquela instituição. Resta a Alemanha, que um dia terá de escolher entre renunciar aos seus princípios ou pagar.
O crescimento italiano pode acelerar? Isso suporia importantes mudanças estruturais: eficácia do Estado, qualidade do sistema financeiro e peso do crime organizado levantam problemas difíceis para resolver. Quanto à inflação ela não deverá aumentar, o BCE velará por isso. Ou seja, há todas as razões para estar pessimista.












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